Olá leitores do Burn Book. Hoje trago uma resenha diferente, escrita pelo Nicholas Andueza, sobre o livro "Mastigando humanos", que é um romance hilário e apetitoso, em que contestação adolescente e ideais filosóficos fluem pela veia sarcástica e sofisticada de Nazarian.

mastigando Resenha: Mastigando Humanos, de Santiago Nazarian.

 

 

 Mastigando Humanos

 Autor: Santiago Nazaria
 Editora: Nova Fronteira
 Páginas: 219
 Ano de Edição: 2006
 Resenha por: Nicholas Andueza

 

 

 

 

Um jacaré falante é algo incomum. Mais incomum ainda é um jacaré que além de falante é escritor. E que tal um sapo beberrão e fumante que cheira cola junto a seu parceiro de boemia, um moleque de rua? É nessa linha “psicodélica” – como o autor coloca – que se desenvolve o romance “Mastigando Humanos” de Santiago Nazarian. No único capítulo do livro, um jacaré letrado e pensante constrói um tipo de autobiografia.

Logo no início da narrativa, o crocodiliano admite que, “como todos os jovens”, sempre quis provar o gosto pelos subterrâneos, e com isso justifica sua chegada aos esgotos de uma cidade qualquer. Saiu do seu habitat natural, abdicando das piranhas, das capivaras, de uma vida saudável e bucólica, para se aventurar até a metrópole, onde começa nova vida, à base de salgadinhos, yakissoba, jujubas e alguns humanos. Mas antes que se monte um cenário de terror, que fique claro: não é o caso. Trata-se de um interessantíssimo jacaré que discursa e reflete ironicamente sobre a vida ao mesmo tempo em que conta sua história.

Seu primeiro amigo na cidade foi um cachorro, o qual batizou de “Brás”. O cão, como era de se esperar (?), não falava. Muito menos lia. Latia. Não se tornou comida de jacaré, pois encontrou o réptil assim que este chegou, quando ainda estava enjoado com as condições do subterrâneo. Logo chegam mais personagens, como Vergueiro, o sapo boêmio, Santana um tonel de óleo, Voltaire, um lagostim francês e vários outros. Personagens envoltos em caos, sujeira e humor negro.

O livro produz, entre outras boas reflexões, uma divertida posição politicamente incorreta sobre a escola e o meio acadêmico. A crítica não é, no entanto, mais profunda do que a crise de identidade do nosso pensante jacaré – que chega a fazer faculdade. “Mastigando Humanos” é, sem dúvida, um livro suculento, bom de mastigar.

 

"Ao jovem que deseja escrever eu indicaria não olhar para os lados, nem mesmo para trás, a não ser para vislumbrar a própria sombra que possa ter sido produzida por um sol intenso que se coloca diante de seus olhos de forma a cegar seus passos futuros, queimar seu semblante, que pode ser tomado como um de preocupação, mas que estará revelado em todas as suas imprefeições e alegrias por um astro maior que, na realidade, não é nada além da mais absoluta vontade de viver, vencer e secar sobre uma terra onde faltam apenas suas lágrimas para germinar." - Sebastian Salto (pg. 181)

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