Coringa | Crítica

Você pode se vingar do mal sem se tornar parte dele? É com essa pergunta, feita por um finado Coringa, que começo essa crítica.

O novo filme da DC é de certa forma uma das adaptações mais fora do mundo dos quadrinhos.  Usando grandes clássicos dos anos 80 como referências, inclusive com participações de Robert De Niro, Martin Scorsese (nos estágios iniciais do filme) e inspirações visuais de Um Dia de Cão (1975) e Taxi Driver (1976), foi construído um plano de fundo para a formação do novo Coringa, interpretado por Joaquin Phoenix.


Desde que foi anunciado, Coringa trouxe à tona uma discussão sobre a cultura “incel”, termo usado para definir homens que se sentem no direito de ter o corpo de uma mulher e, quando não possuem, se dizem “involuntariamente celibatários” (in-cel). Quando analisado superficialmente, o filme pode facilmente ser entendido como um grande manual/romantização da cultura incel, ou como gosto de chamar de uma versão mais masculina de Jogos Vorazes, onde temos uma Katniss Incel. Não tem como fugir muito disso, afinal, o Coringa é um personagem mega problemático e com claros transtornos mentais. Cabe ao espectador a interpretação dos fatos apresentados e também saber dosar a dose de gatilhos, que não são poupados no filme.

Dessa vez, a adaptação traz Arthur Fleck (Joaquin Phoenix), um comediante fracassado que ganha a vida com bicos de palhaço e, ao mesmo tempo, prepara sua grande estreia no stand-up. Arthur tem transtornos mentais diversos, incluindo a risada patológica, que exigiu um grande estudo do próprio Joaquin Phoenix para construção do personagem. Fica bem claro o motivo de terem escolhido ele para o papel: seja pelo seu histórico de filmes ou pela entrega/preparo para viver um dos maiores vilões da DC, o ator entrega uma interpretação digna de Oscar, com todas as nuances esperadas, inclusive as mais negativas, quando o personagem percebe que chegou ao seu limite.

Falando do Coringa, o personagem finalmente aceita sua verdadeira natureza de maneira precisa, seja por meio de modificações corporais ou pela risada característica do personagem. Joaquin Phoenix está impecável no papel.

Voltando pra trama do filme, além desse arco, também temos uma mãe doente e os reflexos da sociedade moderna na vida de pessoas que por algum motivo vivem marginalizadas. O filme tenta ser sério nesse ponto, mas acaba se perdendo no rumo que as coisas tomam e como são “justificadas”. É perceptível que consideram aquela famosa expressão “os fins justificam os meios”, mas de forma um tanto quanto conturbada, usando a sociedade que vivemos hoje como grande vilão do filme.

Coringa é problemático em vários pontos, começando pelo diretor Todd Phillips, que já produziu filmes como “Se Beber, Não Case”. Em entrevista, Phillips declarou que deixou de fazer filmes de comédia por conta do politicamente correto, erroneamente traduzido como “por conta dos Militantes” dependendo do site/lugar de fala que você ler a tal entrevista.

Phillips usa elementos gráficos em momentos que não tinham tanta necessidade e flashbacks que tornam a experiência um tanto quanto anticlimática, tirando o expectador da cena e, em alguns momentos, fazendo o mesmo duvidar se aquilo realmente estava acontecendo ou se é coisa da cabeça do personagem.

Apesar do filme se passar em uma cronologia separada do universo cinematográfico da DC, existem sim referências/elementos que liguem a história de Arthur Fleck ao Batman. Também senti em alguns momentos, elementos apresentados em Batman – A Piada Mortal, de Alan Moore e Brian Bolland na trama, mas nada que ligasse especificamente o Coringa de Joaquin Phoenix aos quadrinhos.

Coringa é um bom filme, em questão de adaptação e representação do vilão em tela, se equipara ao material apresentado por Heath Ledger (apesar de eu ainda preferir o Heath Ledger, mas enfim). Contudo, é um tanto quanto problemático em diversos pontos e recheado de gatilhos. O filme levantou grandes polêmicas, tanto que a própria Warner cancelou a coletiva de imprensa nos EUA e Coringa não será exibido na sala de cinema de Aurora, Colorado, local onde um atirador invadiu uma sessão de Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge em 2012, matando 12 e ferindo 70.

Vítimas do ataque, liderados pela mãe de uma garota de 24 anos que foi assassinada no local, Sandy Phillips, escreveram uma carta à Warner Bros., pedindo que parte dos lucros seja direcionado ao auxílio de vítimas de armas de fogo: 

“Estamos convocando vocês a serem parte de uma legião de líderes corporativos que entendem sua parte na responsabilidade social de nos proteger. Minha preocupação é que uma pessoa que esteja por aí – mesmo que seja apenas uma – que esteja no limite, querendo ser um atirador, seja encorajado por este filme. E isso me amedronta”. 

Fica para o espectador a missão de assimilar os fatos apresentados no filme, e interpretar da melhor maneira possível, não levando nada daquilo como modelo a ser seguido, e se em algum momento você/alguém que você conheça se identificou com o personagem, procure ajuda.

Personagens
Enredo
Trilha Sonora
Efeitos Especiais
Nota dos Leitores:1 Vote4.75
4

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