O Diabo de Cada Dia | Quando o delírio religioso encontra os holofotes 16

O Diabo de Cada Dia | Quando o delírio religioso encontra os holofotes

O suspense do diretor nova iorquino, Antonio Campos, peca por limitar sua narrativa, mesmo que bem intencionado, à uma tentativa frustrada de simular a experiência de um conto cinematográfico.


Quando o público se aproxima de um filme de forma casual, o faz pelos profissionais envolvidos, seja ator, diretor ou até mesmo aquele que estiver sob o comando da trilha sonora. Na maioria das vezes, um elenco pode variar entre um, à dois nomes de peso, mas o que fazer quando todo o elenco eleva a expectativa à níveis que, talvez, nem o próprio projeto pretende alcançar? É necessário conciliar, da melhor forma possível, os pesos de cada um em tela de maneira que a própria obra não apresente excessos que, mesmo tendo uma finalidade, podem acabar impactando negativamente a relação do público com os personagens apresentados. A história baseada no romance de Donald Ray Pollock, de 2011,  é ambientada na zona rural do sul de Ohio, em uma cidade chamada Knockemstiff, ao longo de duas décadas, cercando figuras sombrias e bizarras. Confira a sinopse de ‘O Diabo de Cada Dia’, o novo filme original da Netflix:

Em um lugar chamado Knockemstiff, Ohio, um sertão esquecido deste país, onde uma tempestade de fé, violência e redenção está se formando. Desesperado por salvar sua esposa moribunda, Willard Russell se volta para a oração que sucumbe ao sacrifício. Isso coloca o protagonista Arvin, filho de Willard, no caminho de garoto intimidado até um homem que sabe quando agir. O Diabo de Cada Dia envolve um elenco nefasto de personagens que é contado ao longo de duas décadas.



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Descrição da imagem: Personagem Willard Russel e Arvin Russel ajoelhados e orando

Dirigido e escrito pelo nova iorquino e filho de brasileiro, Antonio Campos, em parceria com Paulo Campos e Donald Ray Pollock, o próprio autor do livro adaptado. A premissa, presente desde o título, gira em torno da relação dos personagens com a fé e a superficialidade da reputação cristã, sendo algo ligado a igreja ou não, mas que ao longo do filme se concretiza como a principal fonte do suspense e perturbação, seja no uso exacerbado de figuras religiosas como a cruz, ou até mesmo em diálogos repletos de cinismo entre pastores e figuras da lei. Junto à uma trilha sonora pontualmente bem executada, que mescla entre faixas fúnebres e da cena country estadunidense do século XX, fazendo jus à atmosfera de cidade pacata do filme.

Seguindo a tendência de adaptações  literárias, é compreensível e até mesmo louvável ver que foi feito um esforço para seguir ao máximo a experiência desenvolvida entre os arcos, contando até mesmo com a narração do autor Ray Pollock, mantendo trechos exatos do livro. O problema é, a narração é reconhecida de forma unânime como uma grande armadilha para qualquer roteirista nos cinemas pois é, facilmente, transformada em um excesso que pode desconstruir o peso dramático exercido em cena. Diferente, por exemplo, do que é feito na ficção científica ‘Ad Astra‘, onde os pensamentos do protagonista são utilizados também como uma narração, mas não exatamente no sentido de representar literalmente o que está em tela, e sim, abrindo uma porta para que a audiência viaje dentro da inquietude psicológica do astronauta. Dessa forma, acaba sendo algo positivo que soma muitas camadas a tudo que acontece no filme. Contrário ao que é visto na construção feita por Antonio Campos, que através da narração e montagem do filme, reforça as mesmas ideias inúmeras vezes, sendo algumas até mesmo simultâneas, desgastando significativamente o trabalho desempenhado em tela pelos atores.

Se por um lado alguns recursos utilizados comprometem a narrativa, o mesmo não pode ser falado das atuações que trazem todo o brilho que a obra merece, então, nesse ponto é mais do que certo parabenizar o diretor pela escolha audaciosa de trazer tantos ‘protagonistas’ para um único projeto. Decisão que casa diretamente com a ideia de arcos dentro do filme, e justifica cada ramo da narrativa ter o seu próprio protagonista o que, no final,  acaba elevando muito o nível da história a partir do momento que essas ramificações se conflitam. De um lado, Tom Holland que fez seu nome primariamente no drama “O Impossível”, mas que posteriormente ficou reconhecido pelo seu papel como o herói juvenil e carismático Homem-Aranha. Que não é um papel simples, porém, bem menos complexo do que é desempenhado aqui, estabelecendo um personagem distante das figuras dicotômicas que são dividas entre o bem e o mal.

Seguindo isso, Holland se prova apresentando Arvin Russel, um rapaz que teve sua infância corrompida pelos fanatismos religiosos de sua família. E mesmo corrompido, ainda cresceu bondoso e de certa forma ingênuo, essência que combina muito com a figura do próprio ator. Enquanto do outro lado, mesmo com pouco tempo de tela, Bill Skarsgård interpreta William Russel, o jovem rapaz atormentado pela guerra que inicia o ciclo de acontecimentos no filme. Ao lado de Robert Pattinson, que diferente de Holland, está em sua zona de conforto dando vida à um pastor espalhafatoso e charlatão que devido a exageros, totalmente condizentes com a proposta, quase chega a parecer uma caricatura. Já um pouco mais distante desses núcleos, Sebastian Stan (muito bem caracterizado, por sinal) interpreta um policial frustrado e corrupto, que visa uma ascensão hierárquica no poder da cidade, mas que está disposto a fazer vista grossa para os mais terríveis crimes por isso. 

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Descrição da imagem: Diretor Antonio Campos filmando o ator Tom Holland em meio à uma floresta acabada.

O saldo final acaba sendo positivo, entretanto, é inegável afirmar que algumas poucas cenas que apresentam certa perturbação diante dos exageros da religiosidade, poderiam ter mais presença na trama, dando à Netflix a oportunidade de ter um projeto mais característico do gênero de suspense, talvez, até recaindo para a tendência atual do terror psicológico. Mas seguindo esse mote cristão, é possível afirmar que o maior pecado do filme more na insistência de algumas escolhas narrativas  que evidenciam, inconscientemente, uma falta de fé no potencial daquilo que somente os atores poderiam representar em tela.

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O Diabo de Cada Dia - Crítica
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