Publicado no Potterish

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Há praticamente uma semana, mais especificamente no sábado (01), após o jornalThe Sunday Times publicar uma foto em seu Twitter da primeira página de sua próxima edição, que iria às bancas na próxima manhã, uma reviravolta aconteceu na internet. Todos os fansites e redes sociais dedicados a série Harry Potter publicaram sobre um suposto arrependimento de J.K. Rowling. O arrependimento de ter formado o casal Romione.

Hoje, 5 dias após tal jornal ter sido publicado, a edição da revista oficial em que Emma Watson estampou a capa e foi editora, entrevistando a própria Rowling, fora às bancas com a entrevista na integra, sem distorções.

A equipe de tradutores do Ish, como sempre, se desdobrou e traduziu a entrevista para vocês!  Vá ao modo notícia completa e confira com os seus próprios olhos a verdade, além de outros assuntos abordados, como a adaptação do filme “Animais Fantásticos e Onde Habitam”.

J.K. Rowling, escritora e filantropa.
Revista Wonderland – Edição de Fevereiro/Março de 2014.
Traduzido por Renan Lazzarin; Revisado por Renato Augusto Ritto.

Jo Rowling escreveu Harry Potter, a série de livros mais vendida da história, e ainda consegue ser engraçada, querida, calorosa e de verdade. Ela passa uma grande parte do seu tempo apoiando instituições de caridade, como a Comic Relief, a Multiple Sclerosis Research através da Clínica de Neurologia Regenerativa Anne Rowling e sua própria instituição infantil, Lumos… Mais recentemente, escreveu os romancesMorte Súbita e O chamado do Cuco (um romance policial, sob o pseudônimo de Robert Galbraith).

Sempre quis lhe perguntar sobre o roteiro que você está escrevendo para a Warner Bros., do Animais Fantásticos…

A Warner Bros. conversou comigo há séculos, dizendo que eles queriam fazer alguma coisa com o Animais Fantásticos. Eu conseguia enxergar o potencial. Tendo escrito algumas coisas para a Comic Relief, eu sabia alguma coisa sobre o Newt [Scamander, o autor fictício de Animais fantásticos]. Eu já tinha imaginado uma pequena história pregressa para ele…

Então, quando a Warner Bros. veio até mim e disse que eles queriam fazer um filme do livro, eu tive esse sentimento simultâneo de “tem um baita potencial” e outro, de leve pânico, “eu sei alguma coisa sobre o Newt e não quero que vocês estraguem isso para mim!”, porque eu sabia quem ele era. Daí eu fui embora e meio que me debrucei sobre o que eu já sabia sobre o Newt, não querendo redigir um roteiro, mas só tentando juntar meus pensamentos para que eu, ao menos, conseguisse lhes dar a história pregressa que eu tinha imaginado, para que a visão deles fosse compatível com o que eu conhecia.

Foi aí que tive um daqueles momentos que deixam você fenomenalmente empolgada como escritora; mas que você também sabe que vai acabar num sem-fim de trabalho. Pensei, “meu Deus, acabou de baixar em mim um enredo inteiro!” Mas eu queria fazê-lo, então fiquei de fato muito empolgada. Não estava pensando em escrever o roteiro eu mesma; pensei, sabe, “vou dar para eles esse enredo” e então – fatalmente – sentei e pensei “como será que seria…” e escrevi o primeiro rascunho em doze dias!

Nossa!

Não era um rascunho maravilhoso, mas mostrava a forma que o roteiro poderia ter. Então foi assim que começou tudo.

Uau! A Warner Bros. deve ter ficado muito empolgada.

Acho que eles ficaram meio estupefatos. Não contei para eles que tinha escrito em doze dias. Eu nunca tinha escrito um roteiro. Não era algo em que eu pensei que seria boa; só queria pegar o contorno da história, e isso obviamente me deu um bocado de trabalho em seguida.

Você costuma se preocupar, quando tem uma ideia ótima, quando é atingida por um vórtice de inspiração, com não conseguir colocá-la no papel rápido o suficiente?

Sim, é claro, embora eu trabalhe com a conveniente premissa de que, se vale a pena reter a informação, você vai se lembrar dela. Não acho que eu jamais tenha perdido algo que realmente valesse a pena lembrar.

Às vezes, a inspiração bate em você em momentos inconvenientes? Tipo quando você está dirigindo, ou enquanto você leva as crianças à escola, e você pensa “agora não!”?

Juro por deus que é por isso que eu não dirijo. Não consigo dirigir. As pessoas olham para mim e pensam, ‘como você consegue ser uma mulher de quarenta e oito anos e não ter um carro?’ É porque eu me conheço e sei como sou desligada das minhas proximidades físicas.

Meu marido costuma me avisar a três quartos de distância que está se aproximando para que eu não dê um grito. É ridículo, porque eu obviamente sei que moro com o meu marido, mas eu sou agitada desse jeito mesmo. Ele se acostumou com o fato de que a minha mente está bem longe e que fico desconcertada quando alguém brota perto de mim.


Mas essa tendência tem suas vantagens, porque eu consigo me concentrar dum jeito que sou capaz de me desligar de todo mundo, escrever, e de fato me comprometer à minha memória. Aí eu já tenho tudo registrado, sabe. Acho que a minha aprendizagem escrevendo os três primeiros Harry Potter sendo uma mãe solteira e não tendo muito apoio se refletiu em eu aprender a ser muito eficiente usando o tempo que eu tinha.

Você também anunciou que vai colaborar com uma produção teatral.

Sim, foi uma ideia muito interessante que a Sonia Friedman teve. Por um bom tempo, fui muito resistente com produções teatrais. Um bocado de gente queria fazer um musical de Harry Potter. Não consigo enxergar Harry como um musical, então disse não para todos, mas a Sonia chegou com uma ideia muito interessante, muito bem pensada. Estou bem empolgada com isso.

Vai ter a Hermione?!

Bem, Emma, se você está se oferecendo para fazer a Hermione… [risos] vou contar para você o que eu quero mesmo: quero você, o Dan e o Rupert com uma maquiagem pesadíssima no fundo duma cena em Animais Fantásticos, e daí eu vou me sentar com vocês no bar para jogar uma conversa fora a tarde toda. Você não acha que seria fantástico?

Parece a coisa mais divertida que eu consigo imaginar!

E nós podíamos fazer bagunça no fundo da tela como figurantes.

E daí vemos se alguém conseguiu nos encontrar. Eu pessoalmente gostaria de estar disfarçada, para ter certeza de que ninguém me encontraria.

GENIAL!

Tem tantas coisas que você poderia dizer que conquistou. Qual é a mais significativa para você? Qual é o seu maior triunfo?

Do que eu escrevi, Relíquias da morte foi uma experiência fenomenalmente emocionante, de longe a minha favorita da série Potter. Não era só uma questão de escrita, mas também de terminar uma história que tinha estado comigo por dezessete anos da minha vida e que tinha significado tanto quanto qualquer criação literária pode significar para qualquer escritor. Não apenas porque transformou minha vida materialmente, o que obviamente aconteceu, mas isso só vem lá embaixo, em quarto ou quinto lugar, comparado com as outras coisas que Harry Potter fez para mim.

Mas espero que o melhor ainda esteja por vir. Nada superará Potter em termos de popularidade, eu já aceitei isso, mas, no meu leito de morte, pode ser que eu olhe para um dos meus livros menos populares e seja daquele que eu sinta mais orgulho, porque, para o escritor, as questões são diferentes.

Acho que devíamos discutir sobre a Hermione… tenho certeza de que você já ouviu isso milhões de vezes, mas, agora que você escreveu os livros, você tem uma nova perspectiva sobre como você se relaciona com a Hermione e relação que você tem ou tinha com ela?

Sei que a Hermione é uma personagem com quem muitos leitores se identificam, mas mesmo assim, no cinema e na televisão, você não vê tantas Hermiones assim, a não ser quando elas são alvo de chacota. No sentido de que a garota intensa, esperta e, de certa forma, não muito auto-consciente raramente é a heroína, e eu queria muito que ela o fosse. Ela é parte de mim, embora não seja inteiramente eu. Acho que, quando eu era mais jovem, era desse jeito que as pessoas me enxergavam, mas não era como eu era por dentro.

O que eu vou dizer é que escrevi a relação de Hermione e Rony como uma forma de concretizar um desejo. Foi assim mesmo que tinha sido concebido. A Hermione ficar com o Rony tem a ver com razões que têm pouco a ver com literatura e muito mais com eu me agarrando ao enredo conforme eu o havia imaginado inicialmente.

Ah.

Eu sei, desculpa. Consigo ouvir a raiva e fúria que isso pode causar em alguns fãs, mas, sendo absolutamente honesta, a distância me deu uma perspectiva. Foi uma escolha que fiz por motivos bem pessoais, e não por causa de credibilidade. Estou partindo corações dizendo isso? Espero que não.

Não sei. Acho que há fãs do outro lado que sabiam disso também e que se perguntam se Rony teria sido de fato capaz de fazê-la feliz.

Sim, é bem isso.

E vice-versa.

Era uma relação jovem. Acho que a atração em si é plausível, mas o lado combativo que tem aí no meio… não tenho certeza se você consegue superar isso numa relação adulta; havia uma incompatibilidade fundamental demais. Não acredito que estamos dizendo isso tudo – isso é heresia potteriana!

Eu sei, é heresia.

Em alguns sentidos, a Hermione e o Harry são um par melhor, e vou dizer uma coisa bem estranha. Quando escrevi Relíquias, eu senti isso fortemente quando a Hermione e o Harry estavam juntos na barraca! Não contei isso ao [Steve] Kloves, mas quando ele escreveu o roteiro, ele sentiu exatamente a mesma coisa exatamente no mesmo momento.

Isso é bem interessante, porque quando eu estava fazendo a cena, eu falei para o David Heyman: “isso não está no livro; ela não escreveu isso. Não tenho certeza se estou confortável com insinuar isso, sutil quanto seja.”

Sim, mas o David e o Steve… eles sentiram o que eu senti quando estava escrevendo.

Isso é tão estranho.

E, na verdade, eu gostei daquela cena no filme, porque ela articula uma questão que eu não tinha levantado, mas que eu tinha sentido. Acho que, naquela cena, você sente o fantasma do que poderia ter sido.

É uma cena bem memorável. É engraçado, porque ela realmente dividiu as pessoas. Alguns amaram a cena e outros não gostaram nada.

Sim, alguns realmente a detestaram. Mas isso vale para tantas cenas ótimas de livros e filmes; elas evocam esse sentimento forte positivo/negativo. Por mim, tudo bem; eu gostei.

Lembro que eu amava gravar aquelas cenas em que não tinha nenhum diálogo, em que você está meio que tentando expressar um momento do tempo e um sentimento sem dizer nada. Era só eu e o Dan meio que tentando transmitir uma ideia espontaneamente, e foi bem divertido.

E você pegou a essência perfeitamente; você captou perfeitamente o misto de estranhamento e de emoção genuína, porque tem um quê de «o que estamos fazendo? Bem, vamos continuar, de todo jeito», que me pareceu muito apropriado para aquele momento.

Acho que era o sentido de que, naquele momento, eles precisavam estar juntos, ser crianças e levantar a moral um do outro.

É isso aí, você tem muita razão. Tudo isso também diz algo muito poderoso sobre o personagem da Hermione. Foi a Hermione que passou por tudo junto com o Harry no último livro, na última parte da aventura. Não foi o Rony, e isso também diz algo bem forte sobre o Rony. Desde o início da série, ele foi meio que ferido na sua auto-estima. Ele sempre soube que se sairia como segundo ou quarto melhor, e então fez amizade com o herói da história toda. É uma baita posição para se estar, para sempre, eternamente ofuscado. Então, o Rony teria que ir embora em algum momento.

Mas a Hermione sempre está lá com o Harry. Lembro que você me mandou um bilhete depois de ter lido Relíquias e antes de começar a gravar, e disse algo sobre isso, porque, no fim, era uma jornada da Hermione tanto quanto era do Harry.

Concordo completamente, e o fato de que eles estavam realmente na mesma posição, além de ela ter, de fato, se despedido da família, faz desse um sacrifício também dela.

Sim, o sacrifício dela foi enorme, certamente. Um ato de bravura muito calculado. Não foi um ato de bravura no calor do momento, quando a emoção leva você junto: foi uma escolha deliberada.

Exato.

Eu amo a Hermione.

Eu amo ela também.

Olha, talvez ela e o Rony fiquem bem depois duma terapia de casal, sabe? O que será que acontece numa terapia de casal bruxa? Eles provavelmente vão ficar bem. Ele precisa trabalhar seus problemas de auto-estima e ela precisa trabalhar para ser um pouco menos crítica.

Acho que faz sentido para mim que o Rony tenha feito amizade com o bruxo mais famoso da escola, porque acho que a vida coloca você de frente com o seu maior e mais doloroso medo constantemente – até que você o supera. A situação se repete sempre.

Isso é tão verdade. Aconteceu na minha própria vida. O problema fica aparecendo sempre, porque você é atraído a ele e você fica se colocando frente a ele o tempo todo. Num determinado momento, você decide o que fazer em relação a isso e, às vezes, superá-lo é escolher dizer: não quero mais isso; vou parar de esbarrar com você porque de você não se aproveita nada. Mas, sim, você tem muita razão, é uma ideia bem pensada. Rony está acostumado a ser um coadjuvante. Acho que, para ele, é um papel confortável, mas em algum momento ele tem que tomar as rédeas de si mesmo, não?

É, e até ele chegar lá, as coisas ficam sem resolução. É um assunto não-terminado. Talvez a vida tenha apresentado a ele esse desafio um bocado de vezes, até ele teve que se decidir e se tornar o homem de que a Hermione precisa.

Assim como a sua criadora, ela tem uma queda especial por homens divertidos. Essas garotas certinhas que gostam dos caras engraçados!

É, elas gostam dos engraçados.

É um alívio enorme quando você mesma é tão intensa – você precisa de alguém que leva a vida, ou parece levar a vida, um pouco mais tranquilamente.

Isso certamente é tão importante.

Obrigado pela entrevista.


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Créditos – Reprodução

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