Literatura de Mulherzinha meus ovos 16

Literatura de Mulherzinha meus ovos

Sabe, o negócio é que ando tentando escrever um livro.

Digo tentar porque esta arte maravilhosa de saber contar histórias não é para todos – embora todos nós tenhamos um livro inteiro na cabeça. Mas, o que importa é que dia desses contei a um amigo a minha empreitada. Ele me perguntou qual era o gênero da minha obra – completa na cabeça, inexistente no papel.



Eu resumi o enredo ao que ele respondeu: “Ah, Literatura de Mulherzinha”. Aquilo ecoou no meu cérebro como uma britadeira.

Mas que porcaria é essa de Literatura de Mulherzinha? Quer dizer que se uma mulher escreve um livro sobre mulheres com personagens mulheres deve ser uma obra exclusiva para mulheres?

Dias desses li um livro ótimo e que super recomendo. Trata-se de “A Louca da Casa”, de Rosa Montero, jornalista e escritora conceituada que já escreveu romances maravilhosos como “Instruções para Salvar o Mundo”. O fato é que Rosa escreveu um trecho interessante que me fez refletir por horas.

Assim ela disse: “Já é hora de os leitores homens se identificarem com as protagonistas mulheres, da mesma maneira que durante séculos nós nos identificamos com os protagonistas masculinos”.

Eu posso não ter nada a ver com uma Terra Média tomada por criaturas masculinas e não tenho o menor interesse em sair numa expedição para enfrentar um dragão, mas gosto de “O Hobbit”, por exemplo. Aliás, o fantástico J.R.R. Tolkien, autor das histórias dos hobbits, é considerado machista por parte dos seus leitores. Afinal, 300 páginas e a narrativa não traz nenhuma personagem feminina.

Este debate tornou-se ainda mais acalorado quando a trilogia de filmes “O Hobbit”, inspiradas na obra literária, estreou com algo de diferente. O diretor Peter Jackson decidiu emprestar Galadriel de “O Senhor dos Anéis”, além de criar a elfa Tauriel – tudo para que, ao menos na telona, a história tivesse um quê feminino ali e acolá. Sabe como é, Deus o livre de causar a fúria das feministas.

Tauriel, a elfa criada pelo diretor Peter Jackson na trilogia de filmes "O Hobbit". Tudo para suprir a ausência de personagens femininas na obra literária de J.R.R. Tolkien
Tauriel, a elfa criada por Peter Jackson na trilogia de filmes “O Hobbit” para suprir a ausência de personagens femininas na obra literária

Que a literatura foi território ocupado mais por homens que por mulheres durante muito tempo, todos nós sabemos. O que dizer de Charlotte Brontë tendo que lançar “Jane Eyre” sob o pseudônimo masculino Currer Bell? Diz-se que seu editor a aconselhou que “escrever romances não era um passatempo apropriado para uma senhora”.

E como reagir quando, em meio àquela baita leitura, seu escritor favorito inferioriza as mulheres? Você respira, fecha os olhos e aprecia a obra mesmo assim? Ou a obra, incrível ou não, acaba perdendo valor aos seus olhos?

Esta é uma pergunta difícil. Por exemplo, gosto muito do trabalho de Mário de Andrade, mas confesso que um sinal vermelho apita quando lembro que, certa vez, ele derrapou: “A mulher é sempre um vir-a-ser até que encontre alguém que a faça ser.”

Alguém se lembra quando, no desenho “A Bela e a Fera”, Gastón joga um livro de Bela na lama e diz: “Mulheres não deveriam ler… Vai que começam a ter ideias…”? O cara mais egocêntrico das produções Disney resumiu anos e anos de preconceito numa fala só. E, bem, não é de se surpreender que a coitada da Bela se apaixone por um cara que, entre outras coisas, tem garras e rabo, mas uma bela de uma biblioteca, né?

Pelo menos, fato é que já chegamos ao ponto em que mulheres escritoras cravaram seus valores, compartilharam (e tomaram muitos dos) prêmios literários, são comentadas e revisitadas de novo e de novo e de novo…

E se pararmos de nos referir a estas escritoras de maneira tão pejorativa? Parem de catalogar como Literatura de Mulherzinha, apenas. Ou cataloguem melhor.

Porque histórias de personagens homens e mulheres se confundem e se completam. Ou não. No fim, é nada mais, nada menos, que uma literatura sobre humanos, com algumas mulherzinhas, sim, mas também homenzinhos. Não é?




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