Era tudo tão estranho. O fim. Pensar no fim. Refletir sobre ele. Saber que no final da vida nos enfiariam em um caixão, nos desceriam para muitos pés abaixo da terra e colocariam uma lápide em cima do monte de terra dizendo “Violet, duquesa de Hearthshire, amada mãe e esposa”.

Ou, pelo menos, era isso que estava escrito na lápide da minha mãe.

Eu coloquei meu singelo vasinho de margaridas em cima de seu túmulo, mas ele se perdeu no meio das flores que estavam em todos os lugares. Era verão e tudo ainda continuava florindo, em negação que – muito em breve – estariam caídos pelo chão por conta do outono.

Era um pouco poético, pensar que tanta vida surgia de tanta morte. Acho que minha mãe ficaria feliz em saber que, pelo menos, servia de fonte para tantas flores. Sempre tinha cuidado dos nossos jardins com todo afinco e observava os botões das flores despontando um por um com um sorriso que ela só dava na primavera.

Talvez também fosse poético que seu nome também fosse o nome de uma flor.

O que não era nada poético era como ela tinha morrido de uma maneira ridicula, em uma confusão mal explicada até hoje. Talvez fosse uma briga de inimigos bêbados, uma tentativa de assalto frustrada, uma tentativa de acerto de contas que atingiu a pessoa errada… Tudo que eu sabia era que, seja lá o que fosse, acabou com minha primavera. Levou embora Violet. A violeta do meu jardim.

― Lady Jenny? ― Alguém chamou e eu olhei em volta, sobressaltada.

James se aproximava, sorrindo daquele jeito que costumava deixar meus joelhos sem força. Por sorte, eu estava sentada. O túmulo da minha mãe ficava em frente a um lindo banco de mármore que, no passar desses dois anos, havia se tornado um dos meus melhores amigos. O outro era o rapaz que se aproximava, com um sorriso fácil, mas um semblante preocupado.

― Já te pedi quantas vezes para não me chamar de Lady, James ― eu disse, deslizando um pouquinho para o lado e dando espaço para ele sentar ao meu lado.

― É a força do hábito ― ele se sentou, dando de ombros.

James era filho do Visconde e, por conseguinte, alguém muito próximo da minha família e da família Real. Além disso, meu pai e o pai dele também eram primos, o que nos ocasionou uma vida inteira de convívio. Mas não tinha sido até muito recentemente – até James crescer diversos centímetros, encorpar um pouquinho e aprender a dar esse tipo de sorriso – que eu percebi o quanto me interessava por ele.

― Imaginei que ia te encontrar por aqui ― Ele disse, mandando um olhar distante para o túmulo da minha mãe. ― Dia difícil, né?

― Todos eles são ― eu respondi, encolhendo os ombros. ― Mas, sim, hoje especialmente…

― Dois anos e ainda sem respostas… ― James ponderou e eu acenei com a cabeça, em concordância. ― Isso porque nossa família tem influência… Isso não te faz questionar sobre como vivem os plebeus?

― James… ― eu dei uma risada, cansada dessa história de plebeus.

As famílias ditas nobres tinham um costume péssimo de perdurar essa nomenclatura, acho que como forma de legitimar nossa nobreza. Eu ficava cada vez mais irritada quando tinha que ouvir alguém com uma história dessas e a família de James adorava enaltecer o título em detrimento de que eles consideravam plebeus. É claro que isso acabava reverberando no próprio James, que reproduzia esses discursos e dependia de mim para questioná-los.

           ― Eu sei, eu sei… ― ele respondeu, levantando as mãos como se estivesse se defendendo do meu ataque. ― Não existe essa história de plebeus… Mas, você não fica pensando?

― Sim ― eu assumi, porque ficava mesmo. Minha vida era cheia de regalias que um monte de outros cidadãos ingleses não tinham, simplesmente porque minha família carregava um título, ainda em pleno século XXI. ― Me preocupa muito.

            Caímos em silêncio. Não um silencioso pesaroso ou fúnebre, apesar de estarmos em um cemitério. Um silêncio confortável. Um pouco menos confortável depois que eu tive ciência dos meus possíveis sentimentos por ele, mas era difícil ignorar anos de história e amizade por conta de uma pontadinha de seja lá o que fosse isso. Ainda era confortável. Acho que seria para sempre.

― Sabe o que me preocupa no momento? ― James perguntou, levantando-se do banco e esticando as calças alinhavadas.

Era uma visão. Vê-lo daquele ângulo, com os raios de sol refletindo em seus cabelos e fazendo seus olhos brilharem. Eu me forcei a balançar a cabeça de um lado para o outro, sem saber o que o preocupava no momento.

― O sermão que vamos ouvir se chegarmos atrasados para o chá com Rei Richard ― ele riu, esticando o braço para me ajudar a levantar.

Eu dei um pequeno sorriso e assenti, esticando minha mão para tocar seu braço e levantando do banco. Era um costume das famílias nobre tomar pelo menos um chá por semana com Rei Richard e sua família. Normalmente, eu nem desgostava. Era uma chance de encontrar colegas e dar algumas risadas, menos quando falavam alguma coisa sobre plebeus. Não estava particularmente animada para aquele chá, que seria em honra da minha mãe. Anos depois, mas continuava sendo difícil falar sobre o assunto sem ser inundada por lágrimas.

Andamos juntos pela grama e eu fiquei particularmente grata por ele ter vindo com seu carro. Eu ainda não tinha idade para dirigir e constantemente precisava pedir auxílio de um motorista. Meu pai daria um chilique se soubesse que eu andei a pé, de uber ou – Deus o livrasse – de transporte público. James abriu a porta para mim e eu entrei, agradecendo com o melhor sorriso que eu poderia dar em um dia como aquele.

Era uma vida monótona. Com rotinas muito iguais. Com as mesmas tristezas de sempre. James entrou no carro e deu mais um de seus sorriso, antes de virar a chave e partir. Às vezes eu pensava que tudo que eu precisava era de uma grande mudança. Um grande acontecimento. Uma grande chegada. Algo grande, sabe?

Ou, então, desejava só ter nascido uma plebeia.

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