A apresentadora, atriz e empresária Oprah Winfrey recebeu, no Golden Globe Awards 2018, o prêmio honorário Cecil B. DeMille por seu trabalho na televisão e no cinema. Depois de ser ovacionada pela plateia presente, Winfrey  iniciou um discurso que tocaria em feridas ainda existentes.

Ela iniciou sua fala com uma lembrança da infância: ver o ator Sidney Poitier ganhar o Oscar de melhor ator pelo filme Uma voz nas sombras (1963), sendo ele o primeiro negro a ganhar essa categoria. Nesse momento ela deixou claro a importância da representatividade e o peso do que é ser a primeira mulher negra a ganhar esse prêmio.

Posteriormente a apresentadora teve como tema a imprensa, que passa por dificuldades nos últimos tempos. Ressalta a importância da verdade que impede que recorramos à corrupção e injustiça.

O que sei com certeza é que falar sua verdade é a ferramenta mais forte que todos temos. E eu estou especialmente orgulhosa e inspirada por todas as mulheres que se sentiram forte o suficiente para contar suas histórias pessoais.

Cada uma de nós nessa sala é celebrada pelas histórias que contamos. Esse ano nós nos tornamos a história. Mas não é uma história que afeta apenas a indústria do entretenimento, é uma que transcende qualquer cultura, geografia, raça, religião, política ou lugar de trabalho.

Leia o discurso de Oprah Winfrey no Globo de Ouro traduzido

Obrigada, Reese [Witherspoon]. Em 1964, eu era uma garotinha sentada no chão de linóleo da casa da minha mãe em Milwaukee, assistindo Anne Bancroft apresentar o Oscar de melhor ator, na 36ª edição do prêmio.

Ela abriu o envelope e disse cinco palavras que literalmente fizeram história: “O vencedor é Sidney Poitier”. O homem mais elegante que eu já vi subiu ao palco. Sua gravata era branca, sua pele era negra – e ele estava sendo celebrado. Nunca havia visto um homem negro ser celebrado dessa maneira.

Tentei muitas, muitas vezes explicar o que um momento como esse significa para uma garotinha, uma criança que olha a mãe passar pela porta, cansada até os ossos de limpar a casa de outras pessoas. Mas tudo o que posso fazer é citar aquela música que Sidney cantou em “Os Lírios do Campo”: “Amém, amém, amém, amém”.

Em 1982, Sidney recebeu o prêmio Cecil B. DeMille aqui no Globo de Ouro, e eu sei que, neste momento, há algumas garotinhas assistindo eu me tornar a primeira mulher negra a receber esse mesmo prêmio.

É uma honra – é uma honra e é um privilégio compartilhar a noite com todas elas e também com os incríveis homens e mulheres que me inspiraram, que me desafiaram, que me apoiaram e fizeram minha jornada até esse ponto possível. Dennis Swanson, que apostou em mim para o talk show “A.M. Chicago”. Ele me viu no programa e disse ao Steven Spielberg, “ela é a Sophia de ‘A Cor Púpura’. Gayle, minha amiga e Stedman, meu porto seguro.

Quero agradecer à Associação dos Correspondentes Estrangeiros. Sabemos que a imprensa está sob cerco nos dias de hoje. Nós também sabemos que é a dedicação insaciável para descobrir a verdade absoluta que nos impede de fechar os olhos para a corrupção e a injustiça – para tiranos e vítimas, e segredos e mentiras.

Eu quero dizer que eu valorizo ​​a imprensa mais do que nunca, enquanto tentamos navegar esses tempos complicados, o que me faz pensar nisso: o que eu sei com certeza é que falar sua verdade é a ferramenta mais poderosa que todos nós temos.

E eu estou especialmente orgulhosa e inspirada por todas as mulheres que se sentiram fortes o suficiente e empoderadas o suficiente para falar e compartilhar suas histórias pessoais. Cada um de nós nesta sala é celebrado por causa das histórias que contamos, e este ano nós nos tornamos a história.

Mas essa não é uma história que afeta apenas a indústria do entretenimento. É uma história que transcende qualquer cultura, geografia, raça, religião, política ou local de trabalho.

Então, eu quero hoje a noite expressar gratidão a todas as mulheres que sofreram anos de abuso e agressão porque elas, como minha mãe, tiveram filhos para se alimentar e contas a pagar e sonhos para perseguir. São as mulheres cujos nomes nunca conheceremos. São trabalhadoras domésticas e trabalhadoras agrícolas. Elas estão trabalhando em fábricas, em restaurantes, estão nas universidades, engenharia, medicina e ciência. Elas fazem parte do mundo da tecnologia, da política e dos negócios. Elas são nossos atletas nas Olimpíadas e elas são nossas soldadas nas forças armadas.

E há outra pessoa, Recy Taylor, um nome que conheço e acho que você também deveria conhecer.

Em 1944, Recy Taylor era uma jovem esposa e mãe que caminhava para casa depois da igreja que ela frequentava em Abbeville, Alabama, quando foi raptada por seis homens brancos armados, estuprada e deixada com os olhos vendados ao lado da estrada. Indo para casa, depois da igreja.

Eles ameaçaram matá-la se ela alguma vez contasse a alguém, mas sua história foi relatada à Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor, onde uma jovem trabalhadora, chamada Rosa Parks, se tornou a investigadora principal em seu caso e juntas buscaram justiça.

Mas a justiça não era uma opção na era de Jim Crow. Os homens que tentaram destruí-la nunca foram perseguidos. Recy Taylor morreu há dez dias, alguns dias antes de seu aniversário de 98 anos.

Ela viveu como todos nós vivemos, muitos anos em uma cultura destruída por homens brutalmente poderosos. Por muito tempo, não ouviam as mulheres, ou não acreditavam nelas quando ousavam falar a verdade sob o poder desses homens. Mas esse tempo acabou. Esse tempo acabou.

Esse tempo acabou. E eu só espero – eu só espero que Recy Taylor tenha morrido sabendo que sua verdade, como a verdade de tantas outras mulheres que foram atormentadas naqueles anos, e até agora atormentadas, seguem adiante. Estava em algum lugar no coração de Rosa Parks, quase 11 anos depois, quando tomou a decisão de ficar sentada no ônibus em Montgomery, e está aqui com todas as mulheres que escolhem dizer “eu também”. E está em todo homem – todo homem que escolhe ouvir.

Na minha carreira, o que sempre tentei fazer de melhor, seja na televisão ou no cinema, é dizer algo sobre como homens e mulheres realmente se comportam. Para dizer como sentimos vergonha, como amamos e como nos enfurecemos, como falhamos, como recuamos, perseveramos e como superamos.

Entrevistei e retratei pessoas que resistiram às coisas mais feias que a vida pode oferecer, mas uma qualidade que todos parecem compartilhar é a capacidade de manter a esperança para uma manhã mais clara, mesmo durante as noites mais sombrias.

Então eu quero todas as garotas assistindo aqui, agora, saibam que um novo dia está no horizonte! E quando esse novo dia finalmente amanhecer, será por causa de muitas mulheres magníficas, muitas das quais estão aqui neste auditório esta noite e alguns homens fenomenais, lutando para garantir que se tornem os líderes que nos levam ao tempo em que ninguém nunca mais terá de dizer “Eu também”.


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