Lucas passou pelas portas da minha casa e eu imediatamente comecei a me sentir esquisita. Estava tudo acontecendo muito rápido. Tínhamos tirado o garoto da prisão onde ele erroneamente foi colocado, o levado para o hospital onde ele deu um susto em todos e simplesmente apagou na maca e agora Hugh, nosso mordomo, estava ajudando meu pai a carregar Lucas para dentro da minha casa!

Eu entendia a necessidade. O menino ainda estava desacordado. Ele tinha acordado no hospital, entendido a situação e aceitado uma carona para casa, quando os médicos o liberaram. Ele parecia até mais calmo depois que pegamos os remédios que ele precisaria tomar e ainda mais tranquilo quando meu pai disse para ele não se preocupar com a bicicleta destruída, que ele iria resolver com a empresa responsável. Estava tudo sob controle!

Porém, era uma verdade que Lucas parecia horrorizado toda vez que alguém chamava meu pai de Vossa Alteza ou que alguém abria as portas para mim, me cumprimentando como Lady Jenny. Mas, era compreensível. Seus documentos diziam que ele era brasileiro e, até onde eu já tinha estudado de história do Brasil, eles não tinham muitos Duques. Quer dizer, nós também não. Não que contem, pelo menos. Os títulos tinham se desvalorizado e foram comercializados com o decorrer do tempo, mas Rei Richard, assim como seu pai fizera e a Rainha-mãe ainda concordava, fez questão de manter pelo menos uma família nobre de cada título por perto. A minha era a família de Duques. Às vezes eu preferia não ser nada.

Enfim, Lucas estava bem. Quer dizer, bem ele não estava. Mas ele foi capaz de andar pelo hospital afora sozinho, entrar no nosso carro e até dar um sorriso fraco. Era verdade que ele não falava muito. Talvez tivesse vergonha do seu inglês? Pelo pouco que ele já tinha falado, dava para ver que não tinha nada de errado com o inglês dele. De repente era só o choque? Eu não sei. Eu sei que, para tentar compensar o silêncio, meu pai estava tagarelando.

Era outra verdade que ele estava grato. Dizia que se não fosse por Lucas eu poderia ter sido sequestrada ou pior. Ele se recusava a falar muito a palavra morta. Compreensível, considerando nosso histórico familiar. Talvez por isso ele estivesse falando tanto. Porque também estava traumatizado com a situação. Eu, que era a maior envolvida em tudo, só queria que aquela noite acabasse. E ela estava acabando! Se não fosse a boca grande do meu pai…

Só que aí no carro, antes que Lucas pudesse falar seu endereço, meu pai começou a falar sobre o que os médicos tinham dito que aconteceu com ele (esse é o problema de ter um pai médico, que acha que todo mundo entende e percebe a medicina da mesma forma que ele). Lucas começou a ficar pálido na primeira vez que ele disse hemorragia interna. Eu estiquei minha mão e segurei seu braço, tentando conter suas explicações, mas quando meu pai entrava no modo professor, era impossível contê-lo. Conclusão? Antes mesmo dele explicar que tinha sido uma hemorragia leve e já contida, ocasionada provavelmente pela bendita bicicleta, Lucas já tinha apagado de novo.

― Que fracote! ― James deu uma gargalhada.

Eu olhei enviesada para ele, de saco jeito. Ele tinha sido o maior idiota a noite inteira, quase irreconhecível. Costumeiramente eu gostava muito dele, mas em poucas horas sua pontuação no meu ranking de pessoas que eu gosto tinha caído vertiginosamente.

Meu pai, achando que o desmaio não tinha nada a ver com a menção a hemorragia interna e tinha alguma coisa a ver com a hemorragia em si, começou a berrar que devíamos voltar para o hospital e eu tive que interferir antes que Roger, nosso motorista, fizesse o retorno de qualquer maneira e corresse de volta para aquele lugar horrendo. O mesmo hospital que minha mãe tinha morrido. Eu queria passar o menor tempo possível dentro dele e, naquela noite, já tinha passado tempo demais.

― Vamos levá-lo lá para casa!

O carro inteiro silenciou com minha sugestão. Até Roger freou bruscamente e olhou para trás, pela janelinha que dividia os bancos da frente dos de trás. Dava impressão que ele sacaria uma pipoca, se pudesse.

― Você é médico, pode cuidar dele agora que ele já foi diagnosticado e medicado. Tenho certeza que isso não é nada ― eu apontei para meu pai. ― Nós não sabemos onde o menino mora, então me parece a solução mais óbvia…

― Levar um completo desconhecido para dentro da mansão Heartshire? ― James cruzou os braços, fazendo bico. ― Me parece uma ideia terrív…

― Maravilhosa! Uma ideia maravilhosa! ― Meu pai interrompeu a malcriação de James. ― Roger, por favor, nos leve para casa.

― Sim, Vossa Alteza ― Roger respondeu, contendo uma risada.

Acho que diferentemente das adolescentes inglesas, ele não gostava muito de James. Este, inclusive, ainda tentava convencer meu pai de que eu devia estar maluca e que levar um desconhecido para dentro de nossa casa só podia trazer coisas ruins e blábláblá.

― James ― meu pai disse, naquele tom de pai que só ele sabe fazer. ― Você sabe que minha estima por você é altíssima, mas esse menino não é um desconhecido ― ele apontou para Lucas, que estava largado na poltrona todo torto, com o pescoço pendurado e a respiração pesada. ― Ele salvou a vida de Jennifer.

Isso fez James se calar. As pessoas podiam achar o que quisessem dele (ou que ele era um porre ou que ele era o melhor solteiro de toda Inglaterra), mas a minha iminente morte claramente seria algo que mexeria com ele. Era de se esperar que mexesse. Ele era meu melhor amigo desde sempre e, quando queria, sabia ser perfeitamente agradável. O problema era que, também quando queria, era o maior pé no saco da história.

Antes de irmos para casa, deixamos James na casa dele, sob constantes lamentos dele. Meu pai teve que prometer que ia tomar conta de mim e que ia colocar funcionários para tomar conta de Lucas, como se ele ainda fosse um criminoso. Eu entendia sua preocupação, mas naquele momento só queria chutá-lo para fora do carro. Foi um alívio quando a porta se fechou e eu o vi caminhar até o beiral da sua casa, sendo recebido por Prentice, seu mordomo.


Isso tudo nos levava aquele momento: Lucas passando desacordado pelas portas da minha casa, carregado por meu pai e Hugh. E a verdade é que por mais que aquela ideia tenha sido genial no momento que a tive, quando o vejo deitado no meu sofá, começo a ficar nervosa.

Não porque ele era um completo desconhecido, mas porque aquilo mesmo parecia um tipo de sequestro. Ele provavelmente não queria estar ali, com a família da menina maluca que ele salvou no parque e que tinha jogado ele na prisão indevidamente. Com certeza Lucas tinha uma família que estava preocupada com seu paradeiro, ou até mesmo uma namorada… Ele devia ter uma namorada.

Sua presença no meu sofá fazia aquele salão gigantesco parecer minúsculo.

― Vou pedir para o levarem para o quarto de hóspedes do andar central ― meu pai disse, contemplando o menino largado no sofá também.

― Será que devemos acordá-lo? ― Eu indaguei, me sentindo confusa. ― Não é certo não perguntarmos o que ele acha.

― Ele precisa descansar, Jenny ― meu pai disse, colocando a mão em cima do meu ombro. ― E você também.

Eu assenti, porque sabia que ele estava mesmo certo, ainda que aquilo me inquietasse. Parecia que adrenalina do ataque da noite ainda não tinha passado. Seria difícil dormir.

― Amanhã você pode falar com ele ― meu pai disse, virando-se para caminhar pelos corredores.

Eu o segui, o mais rápido que minhas curtas perninhas permitiram.

― Você vai me acordar antes de levá-lo para casa? ― Questionei, quando o alcancei.

― Como assim levá-lo para casa? ― Meu pai ponderou, parando no corredor.

― Amanhã, quando ele acordar e tiver melhor ― eu expliquei, sem entender sua dúvida. ― Me acordem se eu não tiver acordada. Quero falar com ele. Agradecer. E me despedir.

― Não vou levá-lo para casa, Jennifer ― meu pai inclinou a cabeça, confuso. ― Ele vai ficar conosco pelo tempo que quiser…

Eu congelei no meio do corredor, incapaz de até mesmo respirar. Como assim ele vai ficar conosco? Eu não estava pronta para encontrar Lucas em todos os cantos da minha casa ou dividir com ele minhas refeições. Não porque eu tinha medo, ou qualquer coisa assim, mas porque era estranho. E porque ele tinha uma vida! Com certeza, quer dizer. E aquilo era cárcere! Não era? Estávamos estragando a vida do menino!

― Pai, nós não podemos mantê-lo prisioneiro… ― eu tentei explicar, mas não conseguia concatenar as palavras.

― Filha, quem quer que tenha te atacado, pode atacá-lo também ― meu pai disse, dando um sorriso fraco. ― Ele é um alvo, agora que salvou você ― ele assentiu, como se seu raciocínio fizesse todo sentido. ― Pretendo manter vocês dois embaixo dos meus olhos até descobrimos quem está por trás do ataque.

Ele virou de costas e saiu andando antes mesmo que eu pudesse tentar refutar seus argumentos. A pior verdade é que eles eram bons argumentos.

E a verdade mais dolorida era que eu tinha estragado a vida de Lucas no momento em que fui atacada e ele resolveu tentar me salvar.



Leia mais sobre a história de Lucas, esse plebeu honrado no Wattpad! O capítulo novo sai toda terça-feira e você tem uma visão bem mais completa da história acompanhando ambos 🙂


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