Leia um trecho de “Alucinadamente feliz”, da autora Jenny Lawson

Jenny Lawson se considera uma colecionadora de transtornos mentais e já foi diagnosticada com diversos tipos de doenças, de depressão e ansiedade a tricotilomania — mania de arrancar tufos de cabelo. Com a notícia da morte prematura de um amigo próximo, Jenny decide que é hora de parar de vez de se sentir triste e autodestrutiva e passa a buscar o exato oposto: se tornar Alucinadamente feliz.

Equilibrando momentos de bom-humor e seriedade, a autora mostra como seus problemas criaram uma perspectiva completamente nova da vida, com histórias absurdas e tocantes. Um livro sério sobre coisas horríveis, Alucinadamente feliz mostra que todos nós temos dificuldades, e que não existe problema em nos aceitar por nossas falhas.

Leia um trecho abaixo:

“Uma série de avisos desagradáveis

Não, não. Eu insisto que você pare agora mesmo.

Ainda está aqui? Excelente. Agora não vai poder me culpar por nada que encontrar neste livro, porque eu avisei que deveria parar e você continuou mesmo assim. Você é como a mulher do Barba Azul quando encontrou todas aquelas cabeças no armário. (Alerta de spoiler.) Mas, particularmente, acho que isso é bom. Ignorar as cabeças humanas decepadas no armário não contribui para um relacionamento, só gera um armário com sérios problemas de higiene e possivelmente uma acusação de cúmplice. Você precisa enfrentar essas cabeças decapitadas, pois não pode crescer sem reconhecer que todos somos feitos da esquisitice que tentamos esconder do resto do mundo. Todo mundo tem cabeças humanas no closet. Às vezes as cabeças são segredos ou confissões não ditas, ou ainda medos silenciosos. Este livro é uma dessas cabeças decepadas. O que você tem nas mãos é a minha cabeça decepada. A analogia é ruim, mas, em minha defesa, eu disse que era melhor parar. Não quero culpar a vítima, mas agora estamos juntos nessa.

Tudo neste livro é em grande parte verdade, mas alguns detalhes foram alterados para proteger os culpados. Sei que o costume é “proteger os inocentes”, mas por que eles precisariam de proteção?Eles são inocentes. Além disso, escrever sobre eles não chega nem perto da diversão que é escrever sobre os culpados, que sempre têm histórias mais fascinantes e que fazem a gente se sentir melhor por comparação.

Este é um livro engraçado sobre viver com um transtorno mental. Parece uma combinação terrível, mas, falo por mim, tenho transtorno mental e algumas das pessoas mais hilárias que conheço também têm. Então, se você não gostar do livro, talvez só não seja louco o bastante para isso. No fim das contas, você sai ganhando de um jeito ou de outro.

Nota da autora

Querido leitor,

Neste momento, você está segurando o livro e se perguntando se vale a pena lê-lo. Provavelmente não vale, mas tem uma nota de 25 dólares escondida na encadernação, então é melhor comprar rápido antes que o vendedor perceba.1

De nada.

Alucinadamente feliz é o título do livro, contudo também é algo que salvou a minha vida.

Minha avó dizia que “chove um pouquinho na vida de todo mundo — chovem chuva, babacas e todo tipo de merda”. Estou parafraseando. Mas ela estava certa. Todos nós temos a nossa cota de tragédia, insanidade ou drama, o que faz toda a diferença é o que fazemos com esse horror.

Aprendi isso em primeira mão há alguns anos, quando caí numa crise de depressão profunda, tão terrível que eu não via como escapar. A depressão não era novidade. Luto contra várias formas de transtornos mentais desde a infância, mas a depressão clínica é uma visitante ocasional, enquanto o transtorno de ansiedade é o meu relacionamento abusivo de longa data. Às vezes, a depressão é leve o suficiente para que eu a confunda com gripe ou inflamação de garganta. Porém esse caso foi extremo. Eu não queria necessariamente acabar com a minha vida, mas só que ela parasse de ser tão filha da puta. Lembrei a mim mesma que a depressão mente, porque é verdade, e disse que as coisas iriam melhorar. Fiz tudo que costuma ajudar, mas continuava me sentindo sem esperança e, de repente, percebi que estava com muita raiva. Com raiva de a vida jogar tantas bolas de efeito na nossa direção. Com raiva da aparente injustiça na forma como a tragédia é distribuída. Com raiva porque não tinha mais nenhuma emoção para oferecer.

Então acessei o meu blog e escrevi uma postagem que mudaria minha perspectiva sobre a vida dali em diante:

‘Outubro de 2010:

De modo geral, os últimos seis meses têm sido uma tragédia vitoriana. Hoje meu marido, Victor, me entregou uma carta informando a morte inesperada de mais um amigo. Talvez você imagine que isso vai me lançar numa espiral de ansiolíticos e músicas da Regina Spektor, mas não. Não vai. Estou de saco cheio da tristeza e não sei qual é o problema do universo, mas pra mim JÁ CHEGA. VOU SER ALUCINADAMENTE FELIZ, SÓ DE RAIVA.

Deu para ouvir? Isso sou eu sorrindo, minha gente. Estou sorrindo tanto que dá para ouvir daí. Vou destruir o maldito universo com a minha alegria irracional e vou vomitar fotos de gatinhos desastrados e cachorrinhos adotados por guaxinins e LHAMAS RECÉM-NASCIDAS FODÁSTICAS COBERTAS DE GLITTER E DE SANGUE DE VAMPIROS SENSUAIS E VAI SER INCRÍVEL. Aliás, estou iniciando um movimento agora mesmo. O movimento ALUCINADAMENTE FELIZ. E vai ser incrível. Em primeiro lugar, porque vamos ser VEEMENTEMENTE felizes e, em segundo, porque isso vai fazer todo mundo que nos odeia se cagar de medo, pois esses babacas não querem nos ver nem um tanto entretidos, que dirá alucinadamente felizes — o que vai nos deixar ainda mais felizes.Legitimamente. Então o mundo vai pender para o nosso lado. Nós: 1. Babacas: 8.000.000. Esse placar não parece muito satisfatório, afinal eles saíram na frente. Só que sabe de uma coisa? Foda-se. Vamos começar do zero.

Nós: 1. Babacas: 0.’

1 Meu editor insistiu para que eu deixasse claro que não tem uma nota de 25 dólares escondida no livro, e é meio ridículo ter que explicar, porque não existem notas de 25 dólares. Se você comprou o livro achando que encontraria uma nota de 25 dólares dentro dele, na verdade só pagou por uma lição bastante válida, que é: não troque a sua vaca por feijões mágicos. Outro livro explicou o mesmo conceito muitos anos atrás, mas acho que meu exemplo plagiado é bem mais divertido. É como a versão Cinquenta tons de cinza de “João e o pé de feijão”. Só que com menos esferas anais e menos mudas de feijão.

via Intrínseca

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