Mariana Tessitore, na Revista Época

 
Cansada de ver as prateleiras das livrarias lotadas de livros com protagonistas boazinhas e submissas, a americana Gillian Flynn decidiu escrever sobre mulheres más. Seus dois primeiros livros, com personagens femininas fortes, haviam feito algum sucesso, mas não o suficiente para que ela abandonasse a carreira de jornalista e se dedicasse somente à literatura. Após ser demitida de seu trabalho, ela apostou tudo no romance Garota exemplar – e, finalmente, as garotas más venceram as boazinhas.
 
Lançado em 2012 nos Estados Unidos, o livro vendeu três milhões de exemplares e foi o primeiro a superar a Cinquenta tons de cinza na lista de mais vendidos do New York Times. É candidato a repetir o feito no Brasil, onde a trilogia de E. L. James continua dominando as primeiras posições. Como se o sucesso popular não bastasse, a obra também conquistou a crítica. Janet Maslin do New York Times, disse que a obra é “povoada por personagens tão bem imaginados que é difícil se separar deles”. O autor de terror Stephen King declarou ser seu fã. Gillian atribui o sucesso às suas personagens assustadoras. “Gosto de escrever sobre garotas que são detestáveis”, disse ela, em entrevista a ÉPOCA.
 
“Estamos acostumados em pensar nas mulheres como naturalmente boas, como pessoas que só fazem o certo. Tento desmistificar essa visão um tanto simplista”. A surpreendente recepção do livro pelos fãs, segundo ela, mostra que os leitores estão preparados para essas novas mulheres na literatura. “Atualmente há espaço para todos os tipos de mulheres, e não apenas para os modelos tradicionais”, afirma. “Os autores não precisam mais se preocupar em escrever um livro que o protagonista seja alguém amável. O importante é criar um personagem que seja interessante”.
 
 
Todos os livros da escritora giram em torno de assassinatos. “Eu sempre me interessei pelo lado sombrio da natureza humana e no que leva as pessoas a fazerem coisas más. Normalmente os crimes têm motivos, até mesmo banais”, diz Gillian. Garota Exemplar conta a história do casal Nick e Amy. Os dois se conhecem numa festa e se casam depois de oito meses. O relacionamento vai bem até que eles se mudam para North Carthage, a cidade natal de Nick. Amy odeia viver no local e as brigas entre eles ficam cada vez mais constantes.
 
No dia de aniversário de cinco anos de casamento, ela desaparece misteriosamente. As investigações apontam para um suposto homicídio e Nick é visto como o provável culpado. A obra tem uma estrutura não linear e alterna os pontos de vista, ora abordando a perspectiva de Amy, ora revelando a visão de Nick. Ao longo do livro, as versões dos dois começam a conflitar e o leitor já não sabe mais em quem confiar. Amy é uma personagem sombria. Todo ano ela realiza uma caça ao tesouro para comemorar o aniversário de casamento dos dois.
 
O gesto pode parecer uma demonstração de amor, mas não deixa de ser um teste cruel para avaliar Nick. Assim são as protagonistas de Gillian: adoráveis e maldosas. Assim como suas personagens, a autora está longe do estereótipo de garota amável e delicada. Passou uma grande parte da sua infância entre livros e filmes de suspense. Aos sete anos, seu filme favorito era Psicose, do cineasta britânico Alfred Hitchcock. Uma de suas brincadeiras favoritas era a de dar formigas para aranhas se alimentarem. Ela também costumava assistir filmes pornográficos na televisão a cabo. Sua vida hoje é mais tranquila, aos 44 anos, ela vive em Chicago com o marido e o filho de dois anos, e se dedica somente à literatura. Já tem um contrato para escrever dois novos livros, sem data de lançamento definida. Suas obras também devem chegar ao cinema. A FOX comprou os direitos de Garota exemplar.
 
A atriz Reese Witherspoon será a produtora e protagonista do filme, e o cineasta americano David Fincher (Clube da luta) já foi sondado para a direção. Embalado pelo sucesso de Garota exemplar, seu livro anterior, Dark places (sem tradução para o português) também chegará às telas, estrelado por Charlize Theron e dirigido pelo francês Gilles Paquet-Brenner (A chave de Sarah). Assim como os leitores americanos, Hollywood também descobriu o charme das mulheres más.
 

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