Quando estreou em 2021 com uma premissa aparentemente modesta, Hacks narrava a colisão inevitável entre uma humorista veterana no crepúsculo da carreira e uma jovem e imatura roteirista de comédia. Cinco anos depois, a produção da Max se despede do público consolidada não apenas como um sucesso de audiência, mas como a melhor série de comédia da década e uma das maiores de todos os tempos. O desfecho da quinta temporada entrega uma jornada impecável que equilibra com maestria o riso descompromissado e a vulnerabilidade emocional, deixando um vazio imensurável na televisão.
O grande trunfo do projeto ao longo de seus cinquenta episódios foi a fidelidade absoluta à sua essência. Em uma era na qual as categorias de comédia nas premiações são frequentemente invadidas por dramas disfarçados, Hacks se destacou por ser desavergonhadamente engraçada. O time de roteiristas liderado por Lucia Aniello, Paul W. Downs e Jen Statsky sempre confiou na capacidade do público de navegar pela linha tênue entre o humor e o drama, garantindo que as piadas afiadas prevalecessem mesmo nos momentos mais melancólicos.

A temporada final funciona como um balanço do legado de suas protagonistas, apostando muito mais no alinhamento e na compreensão mútua do que nos conflitos que ditaram os anos anteriores. A dinâmica entre Deborah Vance (Jean Smart) e Ava Daniels (Hannah Einbinder) atinge o ápice da maturidade, evocando a energia de melhores amigas que se adoram, mas que vivem para implicar uma com a outra. Um dos momentos mais memoráveis do ano ilustra perfeitamente essa simbiose: o hilário episódio em que as duas precisam fingir que são um casal em um jantar com as personagens de Cherry Jones e Leslie Bibb. Da mesma forma, a piada recorrente sobre Ava acreditar que suas mãos eram maiores do que as de Deborah garantiu algumas das maiores risadas da temporada, contrastando com o crescimento profissional da jovem roteirista, que finalmente começa a cavar seu próprio espaço na indústria televisiva.
Além do arco principal, o elenco de apoio e o time de convidados especiais brilharam intensamente neste encerramento. Desde Ann Dowd interpretando uma atriz caracterizada como um alienígena azul até as participações cirúrgicas de Kaitlin Olson como DJ e Lauren Weedman como a prefeita de Las Vegas, a consistência cômica permaneceu intocável. No entanto, o grande destaque paralelo ficou por conta de Jimmy (Paul W. Downs) e Kayla (Megan Stalter). Figuras inicialmente caricatas nas primeiras temporadas, eles se transformaram em verdadeiros coprotagonistas. A química absurda entre o agente e sua assistente inconveniente tornou-se a arma secreta da série, e embora o desfecho da dupla no episódio final tenha parecido um pouco apressado para acomodar todas as resoluções da agência Latitude, a sintonia de Downs e Stalter foi refinada a ponto de justificar facilmente um futuro spin-off focado nos personagens.
Mesmo brilhando na comédia rasgada, Hacks sempre encontrou sua força máxima quando permitiu que suas personagens principais se mostrassem vulneráveis. O quarto episódio deste último ano é o exemplo perfeito disso, ao resgatar o passado de Deborah durante a celebração dos 50 anos de uma antiga sitcom. Ver a veterana lidando com o peso da icônica traição de seu ex-marido com sua própria irmã revela as camadas de proteção que ela precisou construir para sobreviver na indústria, uma armadura que apenas Ava conseguiu desarmar ao longo da série. Jean Smart, magnética e brilhante, entrega mais uma atuação digna de Emmy, provando por que Deborah Vance é uma das figuras mais fascinantes da história da televisão.
Embora o episódio final centralize um drama inserido tardiamente na narrativa — a descoberta do câncer de Deborah e a discussão sobre a eutanásia —, o desfecho se consagra pelo entendimento exato do que tornou a série especial. A história de amor que testemunhamos não é romântica, mas sim um laço profundo que transcende definições, comparável a grandes duplas do audiovisual como Don e Peggy em Mad Men. Ava começou sua jornada ajudando a salvar a carreira de Deborah e terminou salvando sua vida de formas muito mais significativas. Encerrar uma trajetória tão sólida no auge criativo deixa um gosto agridoce de saudade, mas coroa Hacks como um marco definitivo da história recente da TV.
