Lia está a algumas horas de seu casamento, de cumprir um de seus deveres como primeira filha, de tentar unir dois reinos inimigos e de ser negociada como um soldado dos exércitos de seu pai, mas a verdade é que ela não irá pisar naquele altar. Não mesmo, ela tem planejado sua fuga e se tudo der certo, ela não irá morrer no meio do processo, só irá enfurecer meio mundo e provavelmente destruir todas as chances de seu Reino de uma união benéfica, mas afinal, é seu futuro não? Ela deveria ter a oportunidade de escolher e viver, mesmo sendo uma princesa não?

Então ela foge com sua criada e única amiga, Pauline, e ambas vão em direção a uma cidadezinha em que Pauline acredita que ambas estarão seguras e passarão despercebidas. Os primeiros quilômetros são os piores, o medo de serem pegas e mortas, a ansiedade por estarem a um passo da liberdade, o pavor do desconhecido, a tensão de esconder todos seus passos e deixar pistas falsas, a dor de dias e dias cavalgando e dormindo ao relento, a fome… Mas tudo isso valeu a pena no momento em que elas colocaram os pés na cidadezinha, valeu cada maldita respiração pesada de medo. Elas estavam livres para construírem seus destinos e viverem suas vidas.

Elas conseguem emprego e moradia numa pousada dali, e não demora muito para Lia encontrar um ritmo na rotina e começar a relaxar um pouco, porém ela não imagina que o príncipe que ela abandonou no altar – muito irritado por ela ter tido coragem de tomara a atitude que ele cogitou por um segundo, muito indignado por ela ter se recusado a cumprir com sua obrigação de herdeira e ultrajado pela sua petulância de recusá-lo – e um assassino – que foi contratado para matá-la – estão em seu rastro e que ambos, ao entrarem na estalagem em que ela está trabalhando, acabam se surpreendendo e ficando um pouco sem chão ao vê-la.

Os dois jovens – muito atraentes, cada um a sua maneira, por sinal – que entraram e mexeram com ela, trazem passados dos quais não querem falar, e no início ela se sente intimidada por isso, mas com o passar dos dias e o convívio com eles a fazem questionar um monte de coisas e sentir tantas outras que ela nunca sentiu antes. Mas seu passado começa a bater a sua porta, ameaçando destruir tudo que ela está construindo ali, e ameaçando sua consciência de se manter inteira, não é só a vida dela que está em jogo, nunca foi, não com ela sendo quem é, e talvez ela tenha que aprender isso da maneira mais difícil.

“Sempre haveria opções. Algumas escolhas simplesmente não são fáceis de serem feitas.”

O livro começa nos inserindo num mundo totalmente novo, cheio de ritos, mitos e tramas que nos são desconhecidas, e confesso, os primeiros capítulos podem ser confusos, principalmente as primeiras páginas que te jogam num ritual pré matrimonial cheio de coisas que não nos são familiares.

E pensam que o mistério e confusão ficam só nisso? Não se enganem, em boa parte da trama não sabemos quem é o príncipe e quem é o assassino e essa jogada foi sensacional, você faz suposições, você sente, você lê e você vive, mas ainda sim é pega de surpresa quando os eventos se desenrolam com tudo. Aquele surto comum de “AI MEU DEUS, O QUE ESTÁ ACONTECENDO AQUI?!”, acontece e as coisas ficam bem frenéticas e resultam na sua adoração.

Contudo o que me ganhou mesmo foi como ela abordou o clichê central da trama, a questão de ser princesa e não querer um casamento arranjado, de estar afundando perante as pressões e decisões que jogam para cima de si, Lia não é só uma garota mimada fugindo do possível príncipe feio e velho, ela é uma jovem querendo ouvir sua própria voz, ela é uma jovem com medo do futuro que lhe espera e ela não deseja, ela é uma jovem tomando uma medida desesperada, pois todos decidiram o que era melhor e esqueceram de ouvi-la. Ela é o desespero e a esperança por uma vida vivida por ela mesma.

“Pode-se levar anos para moldar um sonho, mas é preciso apenas uma fração de segundo para despedaçá-lo.”

E então vamos vendo a realidade mítica e cheia de tramas e segredos e dons se desenrolando a sua frente e fazendo-a crescer, amadurecer e perceber que talvez ela não possa fugir de seu destino, de suas responsabilidades, mas talvez ela possa fazer sua voz ser ouvida em meio disso tudo e talvez possa encontrar a felicidade nos lugares menos prováveis.


Não posso deixar de elogiar a autora por não ter se concentrado apenas no romance, há muitas outras coisas acontecendo em meio a tudo, inclusive mortes e guerras e ela deixou bem claro que Lia tem um papel nisso tudo e que uma hora ela irá precisar tomar decisões pensando não como mulher e sim como herdeira de um povo.

“Nem sempre o inimigo vem marchando em grandes exércitos, menino. Às vezes, o inimigo é apenas uma pessoa capaz de derrubar um reino.”

O livro que começa um pouco lento e confuso – e confesso, me fez duvidar das tantas boas críticas que eu li nos primeiros capítulos -, mas não desista, pois ele se desenrola e se explica por si mesmo ao ficar alucinante e nos bombardear com informações, surpresas e altas reviravoltas. E não posso deixar de admitir que apesar de estar louquíssima por esse livro a meses, a edição da Darkside foi o que me fez comprar a obra logo após seu lançamento, tudo está impecável.

Resenha: Kiss of Deception, Mary E. Pearson
94%Pontuação geral
Capa100%
Enredo90%
Narrativa90%
Personagens95%
Votação do leitor 6 Votos
80%

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