Ela tem 17 anos, e o relógio já começou a soar dentro dela, três anos, talvez menos para finalmente se decidir se prefere casar, e viver relativamente livre para fazer umas poucas escolhas mas totalmente presa aos ideias de sua sociedade, ou se alistar ao exército, e trabalhar ao lado de seu pai definindo seu futuro pessoal mas para sempre presa a defesa de seu império. Nenhuma das opções a agrada e assim, mesmo sabendo que não deveria ter esse tipo de pensamentos, Krestel começa sua procura pessoal por uma terceira opção.

Já faz uma década que os valorianos conquistaram os Herrans, e a escravidão se tornou algo cotidiano, escravos são uma questão social de poder, e Krestel é filha do general que garantiu essa vitória, ela deveria ter muitos e comprar tantos outros, mas ela não suporta nem mesmo ir a um leilão sem passar mal, ela não se sente bem com isso, mas não pode fazer nada abertamente sobre o assunto, são os costumes de seu povo.

Por isso ela não entende muito bem o que a faz dar um lance no leilão do qual ela quer fugir, mas lá está ela encarrando aquele jovem revoltado, de cachos longos e olhos cinzas frios, jogando cada vez mais alto o valor que nenhum escravo deveria valer. 50 pilares num escravo, seu pai vai matá-la.

Contudo desde o momento em que ela foi buscar seu novo escravo ela sabe que algo está mudando, mesmo que lenta e interiormente.

Assim os dias passam e Krestel começa a descobrir coisas sobre seu escravo, que aos poucos se mostra bem diferente do que ela imagina. Seu nome é Arin, ele fala muito bem valoriano, sabe cavalgar e forja muito bem, é bom no morder e picar e sabe apreciar música e por mais que ela não goste tanto assim de pensar nisso, ele é uma companhia boa para os olhos e agradável o suficiente para fazê-la se sentir ela mesma, como ela não se sente há muito tempo.

Entretanto a cada dia passado mais e mais coisas começam a acontecer que indicam que algo está errado com seu governo, ela pode não querer entrar para o exército, pode não ser boa com armas, mas ela é a melhor em ver estratégias e ela sente que algo está fora do lugar, tão fora do lugar quanto seus sentimentos que começam a se destacar, gritando dentro dela uma verdade perigosa: ela está envolvida com a única pessoa que nunca poderá ter, pois além dele ser seu escravo ele é inimigo de seu povo.

A felicidade depende de ser livre (…) e a liberdade depende de ter coragem.

Para fãs de livros como A Seleção e A Joia, mas com uma narrativa que lembra Rainha Vermelha e o estilo que recorda Sarah J. Maas, A maldição do vencedor veio para me surpreender agradavelmente.

Quando vi essa capa confesso que pensei que não aguento mais capas com meninas em vestidos espalhafatosos e posses desconfortáveis – mas até aí muitos reclamam dessa capa -, assim fiquei bem surpresa quando uma amiga minha me disse para ler sem medo que eu iria amar. Ela estava certa.

A trama começa nos apresentando Krestel, uma jovem que desde o primeiro momento mostra que tem uma mente ágil e uma confiança mordaz em suas habilidades. Uma jovem rica e com pai famoso que não aceita muito bem o sistema escravista em que vive, mas que entende muito bem que uma pessoa não pode causar uma revolução, e que no fim é o jeito como o povo dela está vivendo.

Gostei como ela lida com esse sentimento, essa contradição entre amar seu povo e desprezar um hábito que por ela seria de outra forma, a autora soube trabalhar muito bem isso, esse jogo de sentimentos dentro de uma protagonista que começou de um jeito e terminou de outro, ela soube fazer a jovem fiel a si mesma e isso me agradou muito, porque se fez valer.

Outra coisa que merece destaque foi Arin, o escravo que é mais do que seus frios olhos cinzas deixam escapar. Ele teve seu povo conquistado uma década antes e perdeu uma vida para passar a ser mercadoria na mão de um povo que o despreza. A maneira como temos acesso aos seus sentimentos, suas ações e pensamentos só nos encanta, porque, mais uma vez, reforça toda a atmosfera cheia de contrastes, mas momentos que explicam os sentimentos.

A relação que surge não vem do nada, bem como não se foca apenas no romance, temos uma vista bem ampla do cenário conquistador e conquistado, colonizador e rebeldes, sem nunca perder de vista os horrores que essa situação coloca ambos os lados e as difíceis decisões que alguns devem tomar em prol de muitos.


Entretanto o que eu mais gostei talvez tenha sido como a autora jogou os dois em lados opostos de uma moeda e que nos mostrou o quão fortes podem ser os ideias de uma sociedade a ponto de nos cegarem para o mal que fazemos, da mesma forma como esses mesmo ideais podem nos fazer insurgir e lutar, mesmo que de maneira pouco justa, por nossa liberdade, ela nos joga questões fortes que causam atritos entre o casal, mas não nos fazem desgostar de um ou de outro, só nos fazem pensar que faz sentido.

Não sei explicar, é algo totalmente único para mim, mas Marie Rutkoski criou uma narrativa que não possui elementos óbvios para te prender, mas mesmo assim o faz. Personagens que são a sua maneira originais e carismáticos a ponto de ao fim da leitura você estar os amando e torcendo por um final que seja no mínimo razoavelmente feliz. E uma trama recheada de intrigas e jogos de poder que te farão questionar inúmeras coisas. Se preparem, as últimas páginas trazem acontecimentos que vão te enlouquecer e fazer ansiar pela continuação.

Não é isso que histórias fazem? Transformam coisas falsas em reais e coisas reais em falsas?

Resenha: A maldição do vencedor, Marie Rutkoski
90%Pontuação geral
Capa70%
Enredo90%
Narrativa100%
Personagens100%
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