Resenha: A maldição do vencedor, Marie Rutkoski 3
ResenhasLivros

Resenha: A maldição do vencedor, Marie Rutkoski

Ela tem 17 anos, e o relógio já começou a soar dentro dela, três anos, talvez menos para finalmente se decidir se prefere casar, e viver relativamente livre para fazer umas poucas escolhas mas totalmente presa aos ideias de sua sociedade, ou se alistar ao exército, e trabalhar ao lado de seu pai definindo seu futuro pessoal mas para sempre presa a defesa de seu império. Nenhuma das opções a agrada e assim, mesmo sabendo que não deveria ter esse tipo de pensamentos, Krestel começa sua procura pessoal por uma terceira opção.

Já faz uma década que os valorianos conquistaram os Herrans, e a escravidão se tornou algo cotidiano, escravos são uma questão social de poder, e Krestel é filha do general que garantiu essa vitória, ela deveria ter muitos e comprar tantos outros, mas ela não suporta nem mesmo ir a um leilão sem passar mal, ela não se sente bem com isso, mas não pode fazer nada abertamente sobre o assunto, são os costumes de seu povo.

Por isso ela não entende muito bem o que a faz dar um lance no leilão do qual ela quer fugir, mas lá está ela encarrando aquele jovem revoltado, de cachos longos e olhos cinzas frios, jogando cada vez mais alto o valor que nenhum escravo deveria valer. 50 pilares num escravo, seu pai vai matá-la.

Contudo desde o momento em que ela foi buscar seu novo escravo ela sabe que algo está mudando, mesmo que lenta e interiormente.

Assim os dias passam e Krestel começa a descobrir coisas sobre seu escravo, que aos poucos se mostra bem diferente do que ela imagina. Seu nome é Arin, ele fala muito bem valoriano, sabe cavalgar e forja muito bem, é bom no morder e picar e sabe apreciar música e por mais que ela não goste tanto assim de pensar nisso, ele é uma companhia boa para os olhos e agradável o suficiente para fazê-la se sentir ela mesma, como ela não se sente há muito tempo.

Entretanto a cada dia passado mais e mais coisas começam a acontecer que indicam que algo está errado com seu governo, ela pode não querer entrar para o exército, pode não ser boa com armas, mas ela é a melhor em ver estratégias e ela sente que algo está fora do lugar, tão fora do lugar quanto seus sentimentos que começam a se destacar, gritando dentro dela uma verdade perigosa: ela está envolvida com a única pessoa que nunca poderá ter, pois além dele ser seu escravo ele é inimigo de seu povo.

A felicidade depende de ser livre (…) e a liberdade depende de ter coragem.

Para fãs de livros como A Seleção e A Joia, mas com uma narrativa que lembra Rainha Vermelha e o estilo que recorda Sarah J. Maas, A maldição do vencedor veio para me surpreender agradavelmente.

Quando vi essa capa confesso que pensei que não aguento mais capas com meninas em vestidos espalhafatosos e posses desconfortáveis – mas até aí muitos reclamam dessa capa -, assim fiquei bem surpresa quando uma amiga minha me disse para ler sem medo que eu iria amar. Ela estava certa.

A trama começa nos apresentando Krestel, uma jovem que desde o primeiro momento mostra que tem uma mente ágil e uma confiança mordaz em suas habilidades. Uma jovem rica e com pai famoso que não aceita muito bem o sistema escravista em que vive, mas que entende muito bem que uma pessoa não pode causar uma revolução, e que no fim é o jeito como o povo dela está vivendo.

Gostei como ela lida com esse sentimento, essa contradição entre amar seu povo e desprezar um hábito que por ela seria de outra forma, a autora soube trabalhar muito bem isso, esse jogo de sentimentos dentro de uma protagonista que começou de um jeito e terminou de outro, ela soube fazer a jovem fiel a si mesma e isso me agradou muito, porque se fez valer.

Outra coisa que merece destaque foi Arin, o escravo que é mais do que seus frios olhos cinzas deixam escapar. Ele teve seu povo conquistado uma década antes e perdeu uma vida para passar a ser mercadoria na mão de um povo que o despreza. A maneira como temos acesso aos seus sentimentos, suas ações e pensamentos só nos encanta, porque, mais uma vez, reforça toda a atmosfera cheia de contrastes, mas momentos que explicam os sentimentos.

A relação que surge não vem do nada, bem como não se foca apenas no romance, temos uma vista bem ampla do cenário conquistador e conquistado, colonizador e rebeldes, sem nunca perder de vista os horrores que essa situação coloca ambos os lados e as difíceis decisões que alguns devem tomar em prol de muitos.

Entretanto o que eu mais gostei talvez tenha sido como a autora jogou os dois em lados opostos de uma moeda e que nos mostrou o quão fortes podem ser os ideias de uma sociedade a ponto de nos cegarem para o mal que fazemos, da mesma forma como esses mesmo ideais podem nos fazer insurgir e lutar, mesmo que de maneira pouco justa, por nossa liberdade, ela nos joga questões fortes que causam atritos entre o casal, mas não nos fazem desgostar de um ou de outro, só nos fazem pensar que faz sentido.

Não sei explicar, é algo totalmente único para mim, mas Marie Rutkoski criou uma narrativa que não possui elementos óbvios para te prender, mas mesmo assim o faz. Personagens que são a sua maneira originais e carismáticos a ponto de ao fim da leitura você estar os amando e torcendo por um final que seja no mínimo razoavelmente feliz. E uma trama recheada de intrigas e jogos de poder que te farão questionar inúmeras coisas. Se preparem, as últimas páginas trazem acontecimentos que vão te enlouquecer e fazer ansiar pela continuação.

Não é isso que histórias fazem? Transformam coisas falsas em reais e coisas reais em falsas?

*Encontrou algum erro na matéria? Avise-nos

Ouça o último episódio do BurnCast:

Você pode ouvir BurnCast no Burn Book, no Spotify, no Castbox, no Google Podcasts, no Apple Podcasts, no Deezer, na Amazon Music ou no aplicativo de sua preferência. Assine ou siga o BurnCast, para ser avisado sempre que tiver novo episódio no ar.


Resenha: A maldição do vencedor, Marie Rutkoski 4







Guilherme Cepeda
Guilherme Cepeda é podcaster, blogueiro e escritor. Pós-Graduado em Marketing e apaixonado por tecnologia e literatura desde sempre, em 2010 resolveu criar um blog para compartilhar sua opinião com os amigos. Jamais imaginaria que o projeto chegaria tão longe, tornando-se hoje o Burn Book, um dos maiores portais de literatura jovem do Brasil. Escreveu em co-autoria os livros da série Minha Vida, e em seu trabalho mais recente, já pela Editora Burn Books, publicou o conto “Estarei em Casa para o Natal” na antologia que leva o mesmo nome, também foi publicado em outras antologias pelas Editoras Wish, Villa-Lobos e Rouxinol. Guilherme é co-criador do Podcast “BurnCast”, o qual é responsável pela edição, pós-produção e roteiro há mais de um ano.

Você pode gostar de:

Mais Posts em:Resenhas

Leave a reply

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.