Você já parou para pensar o que acontece com uma jovem bem nascida, filha de alguém importante e que de repente se vê carregando um filho sem nem mesmo estar noiva? Provavelmente não, talvez esse tipo de coisa não lhe passe a cabeça, mas eu vou lhe contar. Uma jovem bem nascida, sem marido e à espera de um filho em 1890 só tem um destino: o manicômio.

Foi assim que Grace, uma jovem perfeitamente sã, acabou em Wayburne, rodeada por insanos, gritos, muito desprezo e alguns poucos casos que apesar de não serem como o dela não são tão diferentes. Engraçado como foi ali, sofrendo fisicamente como nunca antes, guardando uma vida que não ficaria ao seu lado e sem emitir uma única, delatora, palavra, que Grace encontrou um pouco de paz pela primeira vez em anos. Ela poderia lidar com aquilo, com aquele lugar, mas não sabia se conseguia lidar outra vez com os segredos sufocantes de sua casa, com a prisão que estava a sua espera assim que o bebê nascesse. Ela precisava de uma maneira de se libertar, de permanecer ali, morrer ali se fosse preciso.

Todos eles tinham seus terrores, mas pelo menos as aranhas que viviam nas veias da garota nova eram imaginárias. Grace aprendera havia muito tempo que os verdadeiros terrores deste mundo eram as outras pessoas.

Contudo as coisas não saem como planejado e num surto emocional Grace não só acaba falando como também agredindo o médico responsável pelo Asilo, o que faz com que ele a castigue duramente e assim perca o bebê, sua única garantia de estender o tempo ali se foi. Grace se sente vazia, tão vazia e amedrontada que faz o impensável novamente e acaba presa no porão do Asilo, ao lado de uma figura que parece conhecer seus segredos mais obscuros e pretende lhe ajudar a sair dali e não voltar para seu verdadeiro inferno.

– Não se deixe enganar por uma paisagem agradável, doutor – advertiu Grace. – Às vezes, os lugares mais adoráveis abrigam os piores monstros.

É ali que Grace conhece o Doutor Thornhollow, um jovem médico estudioso da psicologia criminal e muito requisitado nas cirurgias transformadoras de residentes agressivos dos asilos. A tranquilidade no olhar dos operados a faz fazer um pedido inesperado, ela prefere aquele torpor a voltar a sua antiga vida, contudo seu colega da escuridão garante ao doutor que a mente de Grace lhe seria muito útil em seus estudos, pede que ele a ajude a fugir.

E ele o faz, levando Grace consigo para o asilo em Ohio, onde ela lhe ajudará em suas investigações e encontrará naquele lugar um lar pela primeira vez, até tudo ser abalado por um serial killer que ataca jovens mulheres e fazer Grace e Thornhollow não só seguirem em seu encalço como também enfrentar fantasmas do passado assustador da jovem.

Admito que não costumo, na verdade nunca li nada desse gênero, porque apesar de amar série como CSI, Criminal Minds e todos que envolvam esse gênero de suspense policial e afins, passo longe de livros que tenham essa temática, afinal uma imagem acalma a coração coisa que uma imaginação fértil demais não o faz, não é mesmo?

Contudo a sinopse desse livro me fez pegá-lo e arriscar, e olha, não me arrependo nenhum segundo de tê-lo feito, o livro é simplesmente maravilhoso, a escrita é instigante, os personagens complexos e a trama tão bem enredada quanto um bom, chocante e pesado – no sentido de “Aí meu Deus, que tenso ter que lidar com isso!” – episódio bem sucedido.

Nesta obra, que eu não classificaria como romance ou suspense policial, encontramos uma protagonista feminina forte presa numa situação complicada, numa época onde a mulher não podia ter voz e tudo era abafado com o poder do dinheiro e posição. Uma protagonista que prefere conviver com loucos a voltar a sanidade de sua casa e tudo isso por quê? Que segredos seu passado esconde? 

– Eu diria que não há diferença alguma – disse Thornhollow. – Para mim, os insanos simplesmente são pessoas que escolheram não participar do mundo da mesma maneira que a maioria, e há dias em que eu me pergunto se elas não estão em seu direito.

Vemos uma sociedade patriarcal nos apresentar inúmeras falhas desse sistema e vemos os mais diferentes tipos de loucura, algumas condenadoras, outras impostas, algumas adquiridas, outras fingidas e algumas tão discretas que podem passar batido. Aqui temos um embate sobre existência, uma discussão sobre igualdade, um tapa na cara sobre o que é sanidade ou não e uma madeira ao fogo que é os problemas familiares e como se lidam com isso. Esse livro é um grito de OLHEM TUDO O QUE ESTÁ ACONTECENDO.

Tudo isso envolto a onda de assassinatos em série e o início da psicologia criminalística que veio para bater a porta dos que todos acreditavam como comum e botar fogo nas questões e tabus envolvendo a mente das pessoas.

Eu juro que li em horas esse livro insano – no bom sentido pessoal! – e se eu não fosse uma romântica incorrigível teria favoritado essa obra, mas eu sou e digo que românticos leiam, mas não levem suas certezas de amor eterno contigo sim? Só para não se frustarem com a falta de uns bons beijos e amores românticos, pois esse não é o livro para isso, esse é o livro para se pensar, se chocar e se impôr como pessoa e ser humano digno.

Resenha: Uma loucura discreta, Mindy McGinnis
93%Pontuação geral
Capa100%
Enredo90%
Narrativa90%
Personagens90%
Votação do leitor 2 Votos
95%

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