A escritora mineira Paula Pimenta em sua casa, em Belo Horizonte – Leo Drumond/Nitro

Raissa Pascoal, na Veja

A escritora Paula Pimenta é uma menina grande. Aos 36 anos, ela não chega ao extremo de ser fã de Justin Bieber e Demi Lovato, mas coleciona mais de 50 livros de Meg Cabot, a ídolo da literatura adolescente, e passa a maior parte do tempo lendo e escrevendo no quarto com bichos de pelúcia e repleto de imagens de lua e estrela, em sua casa em Belo Horizonte, onde mora com a mãe e com o irmão. A alma de menina também é evidente de outras formas. Ela carrega no pulso um relógio com desenho do Mickey Mouse, pinta as unhas com esmalte nas cores rosa, vermelho, azul e roxo, as mesmas que colorem as capas dos seus livros, e é fã de filmes de romance e de fantasia: A Bela e a Fera, Bela Adormecida, Crepúsculo e O Diário da Princesa. É justamente através da ligação intrínseca que mantém com seu passado adolescente que se dá a identificação com suas leitoras, a maioria meninas entre 12 e 16 anos, e o consequente sucesso como autora infanto-juvenil. Desde a publicação de seu primeiro livro, Fazendo Meu Filme 1 – A Estreia de Fani (Gutenberg, 336 páginas, 32,90 reais) em 2008, Paula acumula 100.000 exemplares vendidos com os quatro volumes da série lançados e o primeiro volume de uma nova saga, Minha Vida Fora de Série. “Minha voz interior ainda é muito adolescente. Comecei a viver esse universo. Leio o que os adolescentes leem, escuto o que eles escutam”, diz.

A autora mineira Paula Pimenta em seu quarto, em Belo Horizonte – Leo Drumond/Nitro
 

A fórmula dos livros é simples e está na moda. Abordam temas tipicamente femininos em primeira pessoa e se propõem a traçar, sem juízo de valor, o perfil da mulher moderna, no caso, da adolescente moderna. O estilo literário é apelidado de chick-lit (literatura de mulherzinha, na tradução literal) e capitaneado pelas autoras Helen Fielding (O Diário de Bridget Jones), Candance Bushnell (Sex and The City), Marian Keyes (Melancia) e Meg Cabot (O Diário da Princesa), a mais bem-sucedida, com mais de 15 milhões de exemplares vendidos, e eleita pela mineira como a mentora de seu estilo literário.

Nos livros de Paula, o clima de bate-papo entre amigas é ainda mais explícito do que nos de Cabot. Ela usa a personagem Fani, uma menina tímida de 16 anos, para contar situações reais vividas durante a adolescência: o primeiro amor, os desentendimentos com os pais, os bilhetinhos trocados na sala de aula e um redemoinho de novas emoções típicos da idade, tudo isso somado à oportunidade de estudar na Inglaterra. Paula começou a escrever o primeiro volume durante uma viagem a Londres, onde foi cursar aulas de escrita criativa. “Eu criei a Fani com base em coisas que vivi e acho que existem mais Fanis por aí do que a gente imagina”, diz Paula, que recebe dezenas de e-mails de leitoras dizendo que se identificaram com a personagem.

O fenômeno de vendas da série Fazendo Meu Filme é indício de que Paula conseguiu criar uma personagem que estabelece com as leitoras uma relação de intimidade e veio se fixar como uma das principais autoras nacionais da literatura juvenil. Desempenho parecido no mesmo segmento teve a carioca Thalita Rebouças, conhecida pela série Fala Sério, que acumula 1 milhão de livros vendidos desde 1999, ano do primeiro lançamento.

Paula Pimenta e seu gato Miumiu – Leo Drumond/Nitro

O cotidiano e os interesses de Fani são compartilhados pela maioria de suas fãs na vida real e as histórias da personagem suprem o desejo ávido das adolescentes de ouvir quem fale de suas aflições, mas não desdenhe de sua imaturidade. Ainda que se possa dizer que o enredo não levante reflexões contundentes, os livros da mineira cumprem a função do gênero chick-lit: entreter e incentivar a leitura. “Adoro saber que influenciei a leitura de alguém. O importante é que elas leiam.”

Assim como nos livros de Meg Cabot, as histórias têm altas doses de realismo. Paula reproduz e-mails e mensagens trocadas pela internet entre os personagens e vai a lugares visitados por eles na ficção antes de começar a escrever. No processo de criação do quarto e último livro de sua série de estreia, por exemplo, Paula viajou aos Estados Unidos para conhecer Los Angeles, Las Vegas, Hollywood e Beverly Hills, lugares por onde Fani passa durante o intercâmbio. “Só foi possível escrever o livro por causa da viagem. Lá, tive várias ideias.”

A linha tênue que separa realidade de ficção nos livros da escritora mineira se repete na relação que estabelece com suas leitoras. Paula conta que tem sido alvo de pedidos de amigos e conhecidos para receber filhas e sobrinhas em sua casa. Apenas algumas são recebidas.

As fãs que não têm a chance de ter um encontro particular com a escritora lotam as sessões de autógrafos. Com cada vez mais novas integrantes, a legião de pimentinhas – apelido usado pelas leitoras entre si em alusão ao sobrenome da autora – obriga a editora a multiplicar a quantidade de eventos de lançamento a cada volume publicado.


As pimentinhas já tiveram a chance de mostrar seu poder de fogo em nome da admiração pela escritora. Durante passagem pela Bienal do Livro, em Belo Horizonte, em maio, Paula foi recebida com gritos e levou até alguns puxões de cabelo. Durante sessão de autógrafos organizada em Porto Alegre na segunda semana de junho, o clima foi mais ameno. As leitoras organizaram uma fila para tirar fotos com a escritora e pegar seu autógrafo, assinado em cada livro com uma caneta da mesma cor da capa. “Quando eu era pequena, gostava muito da Xuxa. Fui à gravação do programa dela e fiquei na fila para tirar uma foto, mas a máquina falhou e não me deixaram tirar mais. Ontem, era eu nessa fila”, diz Paula, que só vai embora depois de atender a última da fila.

Ainda tímida diante do público, Paula repete a mesma rotina a cada lançamento: vai à manicure, conta um pouco sobre sua história até chegar ali, toma alguns goles de refrigerante diet, sua bebida preferida, e desafia as fãs a responder um quiz sobre a série. Quem consegue responder corretamente às perguntas, ganha um vidro de esmalte roxo, mesma cor da capa do quarto livro da série Fazendo Meu Filme, e broches da série, encomendados pela editora. Em seguida, ela abre espaço para perguntas e fica horas tirando fotos e assinando os livros. “Ela traduz a menina brasileira”, diz Renata Lopes, de 23 anos, que saiu de Treze de Maio, interior de Santa Catarina, e viajou por oito horas até a capital gaúcha para ver a escritora pessoalmente.

Antes de publicar seus livros, Paula já tinha como fãs sua mãe, seu pai, sua vó e outros parentes. Na infância, a mineira escrevia pequenos poemas e os vendia para a mãe e a avó, que guarda até hoje seu primeiro livro de poesias. Começou a cursar jornalismo, mas desistiu e se matriculou em publicidade. Em uma viagem para Londres, em 2005, a então publicitária cursou aulas de escrita criativa e, inspirada pelos exercícios de descrição e por suas leituras de escritoras como Meg Cabot e J.K. Rowling, conseguiu terminar seu primeiro romance em oito meses.

De volta ao Brasil um ano depois, Paula pediu para a mãe e as primas lerem o romance. “Minha mãe e minhas primas gostaram demais e falaram para eu tentar”, diz Paula, que sempre manda os capítulos em primeira mão para a família e usa suas reações como termômetro de suas histórias.

Com o livro de 336 páginas em mãos, a escritora recebeu duas negativas nas primeiras editoras que visitou. “Uma delas me disse que adolescente não lia livro de 400 páginas. Acho que eles nunca tinham visto Harry Potter.” Na terceira, a editora Gutenberg, de Belo Horizonte, Paula conseguiu que seu livro fosse lido, mas precisou esperar mais dois anos para que a história fosse publicada, com apenas 2.000 cópias de tiragem.

Sem nenhum título na área da literatura juvenil, a editora Gutenberg começou a notar que Fazendo Meu Filme era uma aposta quando os exemplares da primeira edição se esgotaram em oito meses. Fundada há 15 anos, a editora é um dos selos do Grupo Autêntica, de Belo Horizonte. Voltada a títulos de entretenimento, a editora tem em seu catálogo 75 publicações e Paula Pimenta é sua autora mais famosa. A encomenda do segundo volume, escrito em três meses, alimentou a série. O número de exemplares disponibilizados a cada lançamento foi aumentando. O quarto e derradeiro volume da história de Fani já está na segunda edição em menos de dois meses de publicação, somando 23.000 exemplares postos à venda.

 

Como caminho natural de sagas, a mineira planeja adaptar os livros de Fazendo Meu Filme para o cinema. Ela estuda as propostas de três produtoras interessadas. Além da transformação em filme, Paula pensa em uma linha de produtos, com blusa, batom, esmalte e outros artigos. Neste ano, o primeiro volume da série sobre Fani foi traduzido para o inglês e será lançado neste mês no formato de e-book na Amazon e nas lojas da Apple. “A partir do momento que foi traduzido para o inglês, significa que ficou meio universal”, diz Paula.

Para os próximos meses, a escritora ainda planeja o lançamento do segundo volume da série Minha Vida Fora de Série, uma agenda da personagem Fani com um CD com as músicas que aparecem no livro, como forma de incentivo à banda do irmão, a No Voice, e a criação de mais duas séries novas, uma sobre Natália, apaixonada por livros, e outra sobre Juju, que nutre uma paixão pela música.


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Enquanto isso, ela aproveita os momentos de folga com o namorado Kiko, com quem está há seis anos, mas ainda não tem planos de casamento. Afinal, a escritora e sua voz literária ainda são muito novas para se comprometer.

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