Especial: Qual sera o futuro dos sebos?

Publicado originalmente no O Globo

Seu José Germano repete a mesma rotina há 60 anos. Chega às 6h30min em seu sebo e vai embora apenas às 19h. Depois de ter sido faxineiro, entregador e atendente, ele é o atual e único dono da tradicionalíssima Livraria São José, no Centro. Mas o alfarrábio não está mais na Rua São José, onde já teve até quatro pontos diferentes.



O novo endereço, após passar pela Rua do Carmo e a Praça Tiradentes, é a Avenida Primeiro de Março 37. Teve que se mudar para sobreviver.

 

A livraria está acabando por conta do livro digital. Principalmente os sebos. Porque eu vendo livro velho e não existe livro digital velho, não é? — argumenta ele que, aos 74 anos, se rendeu, ao menos, à venda pela internet.

— Não temos mais aquela clientela que tínhamos nas décadas de 1970, de 1980. Há 20 anos, se alguém me oferecesse uma biblioteca de 5 mil, eu não pensava duas vezes. Hoje, não sei.

Sob ameaça dos leitores digitais

O livreiro da São José é apenas uma das pontas desse intrincado negócio de compra e venda de livros usados. Ele representa o perfil mais tradicional, com a loja com corredores longos, clientes de longa data, iluminação menos potente, estantes empoeiradas e edições antigas.

Mas Germano não é o único tipo de livreiro que está tendo que se adaptar a uma nova realidade em que o digital se torna cada vez mais comum, principalmente com a chegada iminente da gigante do comércio eletrônico Amazon ao Brasil. Essas lojas especializadas em obras de segunda mão vão sobreviver após a colisão desse asteroide? 

Sinceramente não sei como um sebo se reinventaria como loja física — diz Camila Cabete, gerente de Publisher Relations da Kobo, o leitor digital que lançará uma loja no Brasil até o fim do ano, em parceria com a Livraria Cultura. — Eu continuarei usando sebos.

Porém, não sei como se comportarão os nativos digitais. O caminho restrito ao comércio online é a opção de alguns livreiros de longa tradição física para tentar evitar a fossilização. É o “exército de um homem só”, argumenta Marcelo Latcher. Ele já participou direta e indiretamente da criação de dezenas de lojas. Hoje, mantém apenas a Gracilianos do Ramo, mas só virtualmente.

Sebo tem os seus dias contados, mas ainda é possível ganhar muito dinheiro na decadência — disparou Latcher, que faz parte de uma geração de livreiros mais jovem que a de Germano.

No futuro, o livro será comprado em um antiquário. Vai ser algo chique. Mas isso não me incomoda em absoluto.

Uma vez que se optou pela internet, o principal caminho adotado no Brasil tem sido a Estante Virtual. Segundo o criador do site, André Garcia, 97% das transações de livros usados na internet brasileira acontece sob o domínio da sua empresa. Garcia, ainda mais jovem que Latcher, não tem qualquer receio das transformações, e diz não ter visto qualquer impacto do livro digital: “fez cócegas no mercado nacional”.

O e-reader vai continuar seguindo como parcela minoritária do mercado aqui — aposta ele, que disse estar preparado para enfrentar a Amazon, caso ela também venda livros de segunda mão no mercado nacional, como faz nos Estados Unidos e em outros países como França e Reino Unido.

De toda forma, ele é outro que não quer ficar parado e já planeja explorar outras áreas, inclusive a obra eletrônica. — Mas em uma competição, o livro físico ganha dos e-books nesse nicho exatamente por sua materialidade. Nem toda livraria de usados aposta unicamente na venda on-line, entretanto. Maurício Gouveia, um dos donos da Baratos da Ribeiro, de Copacabana, cadastra apenas um percentual pequeno do acervo, por conta do alto custo de implementação e a baixa vendagem pelo meio.

Nosso cliente não é o cara que procura o livro X ou Y. Nosso cliente é o cara o que aparece para saber se pintou algo de novo, que gosta de bater papo, dar uma passadinha — explica ele, que acredita que o aluguel no Rio de Janeiro é um problema muito maior que a Amazon.

Livreira aposta em convivência pacífica Tendo experiência de quase 30 anos nas livrarias “tradicionais”, Graça Neiva, do Luzes da Cidade, em Botafogo, sugere que nos sebos sempre se pode encontrar surpresas. Já as que vendem obras novas estão homogeneizadas.

Dizem os mais velhos que a TV era uma ameaça ao cinema. E, apesar de ter diminuído de tamanho, a indústria do cinema não vai tão mal assim. No livro, vai ter que ter acomodação — conta ela que, há anos, quando o assunto livro digital começou a aparecer no Brasil, colocou uma placa, em tom de brincadeira, anunciando que eles estavam comprando Kindles, o leitor digital da Amazon. — Já tinha gente querendo passar o Kindle antigo!

Entre livreiros à moda antiga e outros conectados, fica o mais interessado no assunto, o leitor. Bibliófilo, além de poeta, professor e acadêmico, Antonio Carlos Secchin é autor do “Guia de sebos” que, apesar de estar na quinta edição, ele acredita que já nasce obsoleto. A razão? O crescimento dos sebos virtuais.

— Mas como todo mundo pode se autodenominar livreiro, há uma série de informações erradas circulando pela internet, que eu nem acho que seja de má-fé. Como quando se anuncia um título e é outro.

O colecionador que está em busca de uma edição específica, acaba tendo que tomar bastante cuidado. Contudo, Secchin não acredita que o principal movimento dos sebos seja da busca de uma obra rara. Para ele, o que faz o caixa das livrarias de segunda mão é o best-seller. E aí, o livro digital poderia se tornar um problema.

— Enquanto o livro no sebo for mais barato, vai ter público. Agora é esperar para saber quando o livro digital vai ficar mais barato.

Fonte

 




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Content Director
  1. Nossa cara, muito interessante essa matéria!
    Meu Deus, como assim? Não se importa em não ter mais livros, sebos…livrarias?! Vá pro inferno!
    Preferiria que trocassem esses aparelhos de Kindle e semelhantes todos por livros novos… velhos, enfim, por livros! Tenho horror desse futuro próximo que tanto dizem…

    My recent post Happy Halloween!

  2. Dificilmente eu termino a leitura de um livro pela internet/computador … jamais dispensarei o livro de papel, é amor <3 e não passará!
    Só não compro taantos livros de papel quanto gastaria pois são caros, sebos são um paraíso na terra o … e eu prefiro esperar um pouco mais e juntar uma grana pra comprar o livro físico… do que comprar um pela internet 😉

  3. Como disseram a cima, adoro sebos, meus livros são boa parte usados ou antigos, eu também prefiro economizar e comprar um livro físico que um digital. Amo os livros tanto quando amo ler. Não gosto de livro digital, porque não tenho tanta vontade de ler livros na tela, seja do computador, tablet, etc. E apesar do ler muitos posts em blogs, sites, não vejo graça em ler um livro todo no notebook, fora que é muito mais cansativo para a vista… Não posso afirmar com exatidão, mas eu acredito que a maioria das pessoas preferem o livro de papel, a vantagem do digital é poder levar muitos sem peso, mas, e a graça de virar a pagina?

  4. Se um dia tirarem os Sebos não sei do que sera da vida, porque os sebos não são coisas velhas apesarem de terem mais pós do que de uma livraria, mas eles contem assim livros magníficos, livros que a gente não encontra numa livraria a gente encontra no sebo, eu não gosto de ler pela internet porque meu olhos começam a arder e força demais, agora quando é por um tablet ou algo assim ate que pode de ser mas duvido porque prefiro muito mais os livros, por algum motivo eles transbordam tipo uma energia e me da aquela ansiedade quando vou numa livraria, querendo comprar tudo, mas enfim, eu prefiro e sempre vou preferir os livros de papel, porque quem nunca ficou nervoso quando teve que parar num capitulo e a curiosidade não te deixa e você quer virar a pagina.

  5. Ótima matéria!! Se os livros reais, físicos, dependerem de pessoas assim como eu, tenho certeza que não há o que temer quanto ao seu desaparecimento! Na verdade, acho bem difícil que isso ocorra, certas coisas são para sempre e a tecnologia não alcança. Não tem como excluir os celulares com teclados normais e só deixar para venda e uso os celulares com touch screen, pois há pessoas que não gostam, há pessoas mais velhas que não possuem tanta facilidade em aprender a mexer, ou não possuem tanta capacidade motora… enfim, o que quero dizer é que não dá pra generalizar! Assim será com os livros, pelo que vejo nos blogs, as pessoas que compram livros digitais, em geral, compram quando o livro físico ainda não está disponível para venda e a pessoa quer muito ler aquele livro o quanto antes, mas vejo poucas pessoas da blogosfera preferirem um livro digital a um livro físico. Poxa, há toda uma 'magia', todo um contato com o livro, uma espécie de carinho, de querer conservá-lo, se sentir seu cheiro, folhear as páginas.. são coisas que não podem e não irão deixar de existir.
    Quanto ao sebo, realmente o público diminui, mas não creio que seja pelos livros digitais e sim pela facilidade se comprar livros pela internet.. dificilmente eu compro livros na livraria física, pois essas próprias livrarias possuem sites onde o preço online difere do preço da loja física.. e se eu posso comprar na comodidade da minha casa, podendo pesquisar livros pela 'busca' com enorme facilidade, do que ficar a mercê de certos vendedores de livrarias que não têm paciência suficiente pra tirar todas tuas dúvidas, eu prefiro comprar pela internet mesmo. A livraria Saraiva, por exemplo, não há preços nos livros, apenas em alguns que estão em destaque, mas 90% dos livros não possuem os preços e você tem que ficar indo naquela máquina pra passar o código de barras e descobrir o preço, acho isso chato demais!
    Resumindo, acho que o sebo perde apenas nesse sentido, da comodidade de se comprar um livro físico pela internet, até nos sebos onlines… mas não tanto em relação aos livros digitais em si.. não consigo imaginar como esses últimos podem tomar o lugar dos livros físicos, não entra na minha cabeça, acho algo tão frio, tão sem vínculo, tão tecnológico demais.. mas, claro, há pessoas e pessoas.. só acho que não há possibilidade dos sebos sumirem, nem dos livros físicos sumirem! Sempre haverá público voltado pra eles! Nada é generalizado! Agora, é óbvio que as vendas nos sebos e a venda de livros físicos irão diminuir com essa 'era dos livros digitais'.. mas antes diminuir do que sumir! 🙂
    Bjs!

  6. Eu não abro mão de um livro físico, você pode levar e ler em qualquer lugar sem o risco de ser roubado, não tem bateria para descarregar e o cheiro… tem coisa melhor do que cheiro de livro novo? Já comprei no Sebo do Messias(no site), além de receber o livro direitinho, ainda mandaram um marcador, que livro digital vem com este cuidado? A Estante Virtual, o Sebo Vitória Régia também se adaptaram aos novos tempos. Acho que tem lugar para todos, quando o e-mail chegou disseram que os correios iam acabar, não acabou, apenas se adaptou!
    Um abraço.

  7. Bem, EU não gosto de livro digital, prefiro o fisico… Não impórta se novo ou velho o que importa é o conteúdo…
    Se depender de mim vou continuar frequentando o sebo e as livrarias…
    NADA SUPERA A ALEGRIA DE TER SEU LIVRO FAVORITO EM MÃOS… *o*
    Independente se ficar a preço de banana os digitais, não troco os fisicos!
    Eu não sei pq esse senhor acha isso, pq pelo que eu to lendo aqui nos comentarios, TODOS preferem o fisico…

  8. Ótimo post.
    Por mais que a tecnologia inove com os e-books, nada substituirá o bom e velho livro de papel.
    Adoro passar horas nos sebos da cidade. Além de adquirir livros, exercito minha imaginação pensando em quem era o dono do livro anteriormente, o que ele pensava marcando alguns trechos, motivo do livro ter ido parar ali…
    Sebos são pequenas fendas no tempo-espaço de uma cidade.

  9. Prefiro mil vezes um livro físico, a capa, o cheiro, sem contar que no Pc é horrível de ler, as letras se embaralham os olhos ardem, enfim tomara que os livros físicos não acabem, pelo menos não tão cedo…

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