Olá leitores do Burn Book. A Editora Intrínseca divulgou a capa e sinopse do livro “Homem Máquina”, do autor Max Barry. O lançamento do livro está previsto para 20 de agosto.

Charles Neumann é engenheiro e trabalha em um sofisticado laboratório de pesquisas. Ele não tem amigos ou qualquer tipo de habilidade social, e ama máquinas e tecnologia. Por isso, quando perde uma das pernas em um acidente de trabalho, Charlie não encara a situação como uma tragédia, e sim como uma oportunidade. Ele sempre achou que o frágil corpo humano poderia ser aperfeiçoado, e então decide colocar em prática algumas ideias. E começa a construir partes. Partes mecânicas. Partes melhores.

A especialista em próteses Lola Shanks é apaixonada por membros e órgãos artificiais. Quando conhece Charlie, ela fica fascinada com a possibilidade de ter encontrado um homem capaz de produzir um corpo totalmente mecânico. Mas as outras pessoas acham que ele é um louco. Ou um produto. Ou uma arma.

Confira abaixo um trecho do livro disponibilizado pela Saraiva.
 
 
Quando criança, eu queria ser um trem. não percebia que isso era incomum — as outras crianças brincavam com trens, não de ser um. Gostavam de construir trilhos e impedir que os trens saíssem deles. De vê-los passar por túneis. Eu não entendia isso. O que eu gostava era de fingir que meu corpo era composto por 200 toneladas de aço, impossível de ser parado. De imaginar que eu era feito de pistões, válvulas e compressores hidráulicos.

“Você quer dizer robôs”, corrigiu meu melhor amigo, Jeremy. “Você quer brincar de ser robô.” Eu nunca havia enxergado por esse ângulo. Robôs tinham olhos quadrados, braços e pernas que se moviam abruptamente, e em geral queriam destruir a Terra. Em vez de fazer apenas uma coisa direito, eles faziam tudo errado. Eram construídos com múltiplas finalidades. Eu não era fã de robôs. Eles eram máquinas ruins.

Ao acordar, fui pegar meu celular e ele não estava lá. Comecei a tatear pela mesinha de cabeceira, meus dedos se enfiando entre romances que eu não lia mais porque, quando se vira adepto dos e-books, não há mais volta. Mas nada do celular. Ergui o corpo e acendi o abajur. Rastejei para baixo da cama a fi m de ver se o celular tinha caído durante
a noite e ido parar ali de algum modo. Minha visão ainda estava meio embaçada por causa do sono, então passei os braços pelo carpete na esperança de encontrar algo.

Acabei levantando poeira e tossindo. Mas continuei a varredura com os braços. Pensei: Será que fui roubado? Eu achava que teria acordado se alguém tivesse tentado surrupiar meu celular. Uma parte de mim teria percebido. Entrei na cozinha. Minicozinha. Não era um apartamento grande. Mas era limpo, porque eu não cozinhava. Eu teria visto meu
celular ali. Mas não vi. Dei uma olhada na sala de estar. Às vezes eu me sentava no sofá e via TV enquanto brincava com o telefone.

Era bem possível que ele tivesse caído entre as almofadas. Poderia estar ali agora, apenas escondido. Tremi. Eu estava nu. As cortinas da sala estavam abertas, e a janela dava para a rua. A rua dava para a janela. Às vezes passavam pessoas com seus cães e crianças indo para a escola. Tremi de novo. Eu devia vestir alguma roupa. Meu quarto estava a menos de 2 metros de distância. Mas meu celular poderia estar mais perto.

Poderia estar bem ali. Cobri os genitais com as mãos, disparei pela sala e comecei a tirar as almofadas do sofá. Vi algo de plástico preto e meu coração deu um pulo, mas era só o controle remoto. Fiquei de quatro para tatear embaixo do sofá.
Minha bunda começou a formigar ao primeiro toque do sol da manhã. Torci para que não houvesse ninguém em frente à janela.

Não tinha nada em cima da mesinha de centro, mas embaixo havia um monte de obras de referência em que eu não tocava desde o surgimento do Google. Uma lista telefônica, por algum motivo. Uma lista telefônica. Três milhões de folhas feitas de árvores mortas empilhadas como um monumento à inefi ciência do papel como plataforma
de distribuição de informação. Mas nada de celular. Sentei.

Um cão latiu. Pela primeira vez na vida desejei ter uma linha fixa, para poder ligar para meu celular. Dei uma olhada em cima da TV e não havia nada, mas talvez eu tivesse deixado o celular ali e ele tivesse sido deslocado por alguma atividade sísmica imperceptível. Quando atravessei a sala, meu olhar cruzou com o de uma garota fazendo cooper. O rosto dela estava contorcido. Talvez por causa do esforço. Atrás da TV havia uma civilização inteira de fi os, mas nada de celular.

Tampouco estava no balcão da cozinha. E muito menos na mesinha de cabeceira, ou no carpete, ou em todos os lugares
onde eu já tinha procurado. Eu estava batendo os dentes. Não sabia se ia fazer calor. Poderia chover, poderia ficar úmido, eu não fazia ideia. Eu tinha um computador, mas ele levava uma eternidade para inicializar, mais de um minuto.

Eu teria que escolher minhas roupas sem saber a previsão do tempo. Isso era insano. Tomei um banho. Às vezes, para resolver um problema, é preciso parar de buscar soluções. É preciso recuar. Fiquei ali embaixo d’água repassando mentalmente a noite anterior. Eu havia trabalhado até tarde. Cheguei em casa por volta das 2 da manhã. Acho que não
comi nada. Fui me deitar e adormeci sem usar o celular nem uma vez. Deduzi: Está no carro. Fazia total sentido.

Desliguei o chuveiro. Eu não havia me ensaboado nem lavado o cabelo, mas apenas com a água eu devia estar oitenta por cento limpo. Dava para o gasto. Enrolei uma toalha na cintura, peguei as chaves na cozinha e saí de mansinho do apartamento. A escada estava um gelo. Quase perdi a toalha tentando abrir a porta da garagem. Meu carro estava na sexta vaga, e já dava para ver o suporte vazio.

Abri o carro assim mesmo — bip-bip — e entrei para procurar entre os bancos. Não conseguia acreditar que eu tinha dirigido até em casa sem colocar o celular no suporte. Ou talvez conseguisse sim. Às vezes eu o deixava no bolso
e só percebia quando parava o carro e ia pegá-lo. Isso já havia acontecido. E na noite anterior eu estava cansado. Não era inconcebível.

O celular poderia estar em qualquer lugar. Em qualquer lugar. Olhei para uma parede de concreto pelo para-brisa e tive certeza de que meu celular estava no trabalho. Eu o havia tirado do bolso porque não é permitido entrar com equipamento eletromagnético no Lab 4. Estava na minha mesa. Qualquer um poderia pegá-lo. Não. Havia câmeras. Ninguém iria roubar meu telefone. Ainda mais se eu chegasse cedo. Fui pegar o celular para ver a hora e soltei um grunhido. Aquilo era como estar cego. Coloquei a chave na ignição e lembrei-me de que estava de toalha. Hesitei.

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