Em meio a algumas de minhas crises existenciais, sempre procuro alguma maneira de me desprender da realidade e viajar em alguma coisa, seja ela uma música, uma comida (que foram a maioria das vezes, confesso), um filme ou uma série. Foi em um desses dias, de madrugada, quando meu humor já estava fácil de ser tocado, resolvi dar play em Bojack Horseman, uma série de animação original da Netflix. Já a bastante tempo venho curtindo animações adultas, mas dessa vez estava crente que seria algo bem escrachado e bizarro, no mesmo nível de Beavis and Butt-Head e South Park. Não se enganem, Bojack é bizarro, mas não é o que mais chama a atenção. Foi então que percebi que minhas risadas mentais (raramente rio em voz alta quando estou sozinho) eram intercaladas com momentos de sinceros “Eita”. Vemos um universo antropomorfizado, onde humanos interagem com animais, que portam, vestem e se sentem como humanos. O personagem principal é Bojack Horseman (Will Arnett), um cavalo que fez uma sitcom muito aclamada nos anos 90, no estilo de Três É Demais e Arnold, mas depois disso não foi capaz de manter-se no auge de Hollywood, tornando-se uma estrela decadente, que sofre com a auto-piedade e profundas questões internas, que tenta reprimir por meio de sexo casual; bebida; drogas; comida e relações destrutivas. Bojack passa os dias resmungando e assistindo os episódios antigos de Horsin’ Around, seu finado programa, em uma nostalgia masoquista e implicando com seu “roomateTodd (Aaron Paul), que ele não faz ideia de como passou a morar ali, mas o mantém por perto simplesmente por ter destruído ou sabotado todas suas outras amizades. Ele também namora Princesa Carolyn (Amy Sedaris), uma gata (literalmente) que também desempenha o papel de sua agente. O relacionamento dos dois é totalmente vazio por parte de Bojack, que vê uma oportunidade de se reerguer quando Carolyn consegue um contrato para uma biografia do ex-astro de comédia, que, preguiçoso e incompetente, acaba contratando uma ghostwriter, Diane (Alison Brie) para fazer o trabalho. É aí que ele se apaixona pela escritora (ou pelo menos pensa que se apaixonou), porém ela está noiva do Sr. Peanutbutter (Paul F. Thompkins), um Golden Retriever que atualmente está em alta estrelando um programa praticamente idêntico ao de Bojack.

Tudo isso parece uma viagem de alguém louco de ácido, mas é apenas o começo da primeira temporada, que se utiliza desse pano de fundo bizarro para discutir temas como a invasão de privacidade pelos tabloides; os abusos com estrelas mirins que se tornam adultos desajustados; o mercado feroz de entretenimento; aborto; manipulação; egoísmo e redenção, que sempre acaba sendo estragada por Bojack no fim das contas; além de ótimas piadas recheadas de sarcasmo.


Depois de assistir as três primeiras temporadas primorosas dessa obra de arte, tive a curiosidade de procurar outro desenho interessante, indo na onda de Hora de Aventura e Apenas um Show, animações mais juvenis, porém inteligentes. Foi aí que me deparei com Rick and Morty. Dei início à maratona com a quase certeza de que veria algo leve e divertido. Mais uma vez me enganei completamente. Rick and Morty é divertido, é hilário, mas não é nada leve. Na verdade, ao indicar a série para os amigos, eu a descrevo como “um Doctor Who pesadão”. Rick (Justin Roiland) é um velho cientista beberrão que, depois de ter abandonado sua mulher e filha há muitos anos, retorna abruptamente para a vida da família, que agora é constituída não só por sua filha Beth (Sarah Chalke), mas também por seu marido Jerry (Chris Parnell), sua filha Summer (Spencer Grammer) e por Morty (também Roiland), o escolhido para ser o fiel escudeiro de Rick em suas aventuras hedonistas pelo espaço. Rick não dá a mínima que Morty perca todas as suas aulas na escola e tenha uma interação social prejudicada, dando importância apenas para seus problemas, muitas vezes manipulando o neto para alcançar seus objetivos, com a desculpa de que precisa salvar o universo. A questão, porém, que diferencia essa animação das demais, e até mesmo de outras séries de ficção científica consagradas, é que as coisas nem sempre dão certo. Em um dos episódios (spoiler à frente), por exemplo, Morty pede para Rick desenvolver uma espécie de fórmula do amor, para que sua paquera na escola se apaixone por ele. Rick então mistura feromônios de alguns animais, como ratos no cio e esquilos e dá de presente ao neto. Na noite do baile, o garoto aplica a fórmula na moça, que se apaixona imediatamente por ele. Só que a garota está gripada, e, ao espirrar, transmite o efeito da fórmula para todos presentes no baile, que ficam obcecados por Morty, e posteriormente se transformam em criaturas medonhas parecidas com ratos. Rick então compõe uma nova mistura de feromônios para espalhar pela cidade e tentar neutralizar a situação, porém isso só provoca mais caos, fazendo as criaturas evoluírem para outras mais assustadoras. Após a terceira tentativa sem sucesso, Rick decide desistir daquela realidade, enquanto Jerry, que sempre foi um zero à esquerda, se realiza como um exterminador de criaturas, despertando novamente o desejo de sua esposa e o respeito de sua filha mais velha. Rick e Morty então são obrigados a procurar uma versão entre os infinitos universos paralelos em que os dois morram ao mesmo tempo, enterrando seus próprios cadáveres no quintal e assumindo seus lugares naquela nova realidade, enquanto que, no mundo deixado para trás por eles, Beth confessa que, agora que os dois desapareceram, ela pode finalmente ser feliz. WOW. É por tramas como essa que Rick and Morty não fica devendo nada a nenhuma outra série sci-fi, conseguindo ser engraçada, instigante, inteligente e MINDBLOWING ao mesmo tempo, entregando 2 temporadas brilhantes e a caminho da terceira. 

Vale lembrar que, tanto Bojack Horseman quanto Rick and Morty são animações que usam bastante palavrões e outras situações de cunho adulto em sua linguagem, e, embora a segunda seja um pouco mais comedida em relação aos temas abordados, é bom pensar duas vezes antes de deixar seus filhos ou seus primos que vem te visitar assistirem.


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