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A carta de uma psiquiatra sobre “13 Reasons Why” para os jovens

By Airi M. Sacco

Nos últimos dias, comentários empolgados com a série 13 Reasons Why começaram a pipocar na minha timeline. A maioria deles vindo de alunos e alunas (sou professora de Psicologia, como vocês sabem). Então, fiquei curiosa e fui assistir.

Pra quem não sabe do que se trata, o roteiro básico é o seguinte: uma menina de 17 anos se mata e deixa gravadas fitas cassete nas quais relata os 13 motivos pelos quais se suicidou. Cada um desses motivos está relacionado a uma pessoa e, mais cedo ou mais tarde, todas as pessoas mencionadas devem ouvir as fitas. O protagonista da história é um guri gente boa, que gostava da menina. A trama acabou me pegando pela curiosidade: Por que o guri foi um dos motivos? Quando vai chegar a fita dele?

Assisti até o fim.

A série trata de temas importantes: bullying, solidão, estupro, violência física e psicológica e, claro, suicídio entre adolescentes. Pelo que pesquisei na internet, 13 Reasons Why é um fenômeno de audiência.

Bom… Todo mundo sabe que há um acordo no mundo jornalístico para que imagens de suicídio não sejam divulgadas na mídia. Isso não quer dizer que o suicídio não possa ser discutido nos meios de comunicação. Ele inclusive DEVE ser discutido. No entanto, divulgar casos específicos, e principalmente imagens, pode ser um disparador para pessoas que estão com algum tipo de ideação suicida. Assim, existe um acordo tácito estabelecido sobre essa questão.

Pois bem. Enquanto eu ia emendando um episódio no outro, comecei a ficar incomodada, mas não sabia muito bem por quê. O incômodo foi aumentando, aumentando, aumentando, até que explodiu quando mostraram a cena em que a menina se mata. Sim, eles mostraram a menina se matando. Mostraram tudo, na verdade. Passo a passo, inclusive com close no corte sendo aberto, quando ela está na banheira.

E aí eu entendi o meu incômodo: Ao assistir a série, a gente não torce para a menina não se matar (afinal, sabemos que se matou). A gente torce pra que os responsáveis pela miséria dela sofram, se sintam culpados, sejam responsabilizados. A ideia das fitas parece brilhante: é a morte como vingança. “Me fizeram sofrer, não aguento mais… eu vou, mas eles vão junto”. Em outras palavras: é o suicídio romantizado.

Como se isso não bastasse, a cena em que a menina se mata é praticamente um tutorial.

Então, sinceramente, não consigo entender como 13 Reasons Why está no ar. Sim, nós precisamos falar sobre bullying e assédio sexual na escola. Sim, nós precisamos falar sobre violência. Sim, nós precisamos falar sobre suicídio. Mas não, nós não podemos romantizar o suicídio. Não, não podemos oferecer tutoriais online sobre suicídio e achar que é bonito porque, afinal, quem fez foi a Netflix, e a Netflix é a nossa queridinha do momento.

Não sei, gurizada, eu entendo que muita gente tenha gostado, mas me preocupam um pouco as consequências que podem ser geradas a partir dessa série…

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Guilherme Cepeda
Guilherme Cepeda é podcaster, blogueiro e escritor. Pós-Graduado em Marketing e apaixonado por tecnologia e literatura desde sempre, em 2010 resolveu criar um blog para compartilhar sua opinião com os amigos. Jamais imaginaria que o projeto chegaria tão longe, tornando-se hoje o Burn Book, um dos maiores portais de literatura jovem do Brasil. Escreveu em co-autoria os livros da série Minha Vida, e em seu trabalho mais recente, já pela Editora Burn Books, publicou o conto “Estarei em Casa para o Natal” na antologia que leva o mesmo nome, também foi publicado em outras antologias pelas Editoras Wish, Villa-Lobos e Rouxinol. Guilherme é co-criador do Podcast “BurnCast”, o qual é responsável pela edição, pós-produção e roteiro há mais de um ano.

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