Meu pai estava me olhando daquele jeito alarmado de sempre quando eu abri os olhos. Naquele momento, porém, até eu estava alarmada. Confusa. Onde eu estava mesmo? Ele choramingou meu nome quando me viu acordada, esticando-se para me abraçar. Eu olhei em volta, perdida. Não demorou muito para eu entender que estava em um hospital. James estava sentado ao lado da cama, alguns médicos estavam por perto e dois policias espreitavam pela porta.

Espera, dois policiais?

A lembrança do ataque veio em um rompante, enquanto meu pai ainda estava agarrado no abraço. Dois homens pulando da mata, cercando minha corrida. Minha lerdeza em perceber que aquilo não era um acidente, mas sim premeditado. Meu berro desesperado ao ver o lenço molhado que um deles queria me fazer cheirar. Um garoto desconhecido pulando da mata com sua bicicleta e depois um vazio de lembranças.

Olhei em volta novamente, sem enxergar em lugar nenhum o menino que pulou em minha defesa. Se eu estava aqui e não sequestrada no fundo de uma van qualquer, provavelmente isso significava que ele tinha sido bem-sucedido? Mas onde ele estava? Será que tinha acontecido alguma coisa? Será que ele tinha sido ferido?

Empurrei meu pai com mais força do que era necessário, nervosa com a perspectiva dele ter se machucado por minha causa.

― O que aconteceu? ― Ele perguntou, ainda mais nervoso. ― Está sentido dor?

― Não! ― Eu respondi, de imediato. Na verdade, estava sentindo algumas dores e ardências, mas nada que pudesse ser comparado ao espanto por não ver o menino naquela sala. ― Onde está o menino que te salvou?

Meu pai inclinou a cabeça, sem entender.

― James te salvou, querida ― ele indicou o rapaz sentado. ― Ele te encontrou desacordada no chão e localizou o criminoso.

― Dei um soco nele ― James deu de ombros, com um de seus sorrisos.

― O criminoso? ― Eu questionei, horrorizada. Aquilo não era bom. Nada bom. James era grande, mas meus atacadores eram muito maiores! Ele não daria conta de socar nenhum deles! ― Eram dois, James!

― Eram três, Lady Jenny ― ele corrigiu, usando o termo de tratamento por estarmos na frente do meu pai. ― Dois fugiram, mas eu interceptei o terceiro quando ele também estava fugindo, pedindo para os amigos esperarem.

O quê? Três? Não, não eram três… Minha cabeça começou a doer por conta da luminosidade do hospital, branco demais. Tinha algo de errado, eles não eram três. Fechei os olhos, sensível.

― Não! ― Eu disse. ― Eram só dois! Enormes, corpulentos e medonhos!

― Sim, esses dois fugiram ― James explicou, levantando-se do banco. ― Nós pegamos um terceiro, que estava de bicicleta…

Que estava de bicicle… NÃO!

Meu pai tentou me impedir, mas eu me desvencilhei dos seus braços e comecei a levantar daquele leito. Pelo amor de Deus, eles estavam acusando o garoto que apareceu para me salvar como o responsável? Não, não, não!!! Eles tinham entendido tudo errado.

― Jennifer, volta para essa cama agora! ― Meu pai ralhou, mas eu já tinha pulado para fora.

― Vocês não estão entendendo ― eu disse, controlando os movimentos de James para que ele também não fosse capaz de me interceptar. ― Vocês entenderam tudo errado. Esse menino de bicicleta não é um dos culpados…


― Como não? ― James perguntou, horrorizado. ― Quando eu cheguei na cena ele parecia bastante culpado.

― Você não viu direito, estava preocupado comigo ― eu acenei, achando meu casaco pendurado em uma cadeira e tratando de vesti-lo.

James me encarou com uma expressão confusa, assim como meu pai e os médicos também faziam. Eu observei os polícias pelo canto do olho, passando rádio para seus colegas de outra posição e torci para que eles estivessem mandando ordens para soltar o garoto. Se ele não estivesse passando no Hyde Park naquela hora e não tivesse me visto! O que será que teria acontecido?

― Para onde vocês levaram ele? ― Eu corri até os policias, que olharam na minha direção com confusão.

Pelo jeito eu era a confusão encarnada.

― Lady Jenny, veja bem… ― James começou, me encontrando na porta e segurando meu braço.

― Veja bem nada, James! Você acusou o menino errado ― Eu reclamei, puxando meu braço. Eu estava muito irritada! Não queria vê-lo nem pintado de ouro naquele momento, por mais que eu gostasse dele. ― Aliás, o que você estava fazendo no Hyde Park, para início de conversa?

James pigarreou, olhando para meu pai. Quieto até o momento, ele deu um sorriso sem graça e se aproximou de forma mansa, como sempre. Menos quando ele está uma arara comigo, o que acontece toda vez que ele descobre que eu fugi de sua visão.

― Você acha que eu não sei das suas corridas, Jennifer, mas eu sei ― ele assumiu, encolhendo os ombros. ― Como falho em impedi-las, pedi para que James a acompanhasse. De longe, é claro ― eu comecei a sentir meu rosto queimar, prestes a explodir de ódio. ― Para que ele pudesse interceder caso acontecesse alguma coisa. Como aconteceu hoje…

― NÃO! ― Eu berrei de novo, quicando no chão. ― James teria chegado tarde demais. O responsável por eu estar aqui viva, salva e berrando com vocês está sabe lá Deus aonde porque vocês acharam que ele era um maldito criminoso!

― Jennifer, você não está pensando direito… ― Meu pai teve a cara de pau de dizer.

Eu berrei de novo, farta. Em seguida comecei a narrar todos os fatos. Como fui cercada, como demorei para entender o perigo e como um rapaz alto, moreno e óculos saltou com a bicicleta azul pelo meio das árvores e assustou os bandidos. Depois eu narrei que só lembrava da escuridão, provavelmente por conta do pano embebido de sabe lá Deus o quê que um dos caras deve ter me feito cheirar.

― Clorofórmio ― meu pai explicou. ― Ainda vão confirmar no laboratório, mas achamos que foi isso. Sempre é isso.

― Por favor, precisamos encontrar esse garoto ― eu choraminguei. ― Vocês estão maltratando a pessoa responsável por salvar minha vida. Por favor, me deixem vê-lo.

Meu pai e James se entreolharam, ponderando. Era ridículo que eu tivesse que implorar por isso, mas era minha única fora de sair daquele quarto, especialmente com dois policiais fazendo a segurança na porta. Eu era boa escapista, mas não tão boa assim. Pareceu uma eternidade até James dar de ombros e dizer:

― Eu posso ter me enganado, no calor do momento ― ele assentiu. ― Acho que não custa levá-la para reconhecer o garoto e ver se é o mesmo que estamos falando.

― Obrigada! ― Eu respondi, juntando as mãos em forma de prece.

Minutos depois estamos a caminho da delegacia e eu estou roendo o cantinho do meu polegar. Como é que eu vou pedir desculpas e agradecer ao mesmo tempo? Um completo desconhecido arriscou sua vida pela minha e, em retorno, foi acusado justamente pelo aquilo de que estava me salvando? Eu estava constrangida, para dizer o mínimo.

E não parava de matracar sobre isso no caminho da delegacia. James já estava com o rosto tão baixo que parecia que ele queria se enfiar embaixo do carro, de tanto que eu briguei com ele. Já meu pai estava com os olhos esbugalhados, sem saber no que acreditar. Eu só continuei falando sobre como teríamos que inventar algo muito bom para compensar o garoto.

― Com certeza, filha ― meu pai concordou, aéreo. ― Se isso for verdade, com certeza.

― Se isso for verdade ele pode até nos processar! ― James parecia um pouco nervoso, nos poucos momentos que ele levantava o rosto. ― Quer dizer, pelo menos me processar.

― Mas se ele não é o culpado, para quem os outros dois estavam trabalhando? ― Meu pai questionou, quando o carro finalmente parou na frente da delegacia.

Eu saí correndo para fora, sem nem me dar ao trabalho de continuar ouvindo a ponderação. Claro que aquilo me preocupava, mas eu precisava resolver o problema mais urgente no momento. E o problema mais urgente era o fato de que a pessoa que me salvou estava presa.

Quando cheguei na frente da cela e os policias abriram-na para mim, depois que eu olhei ferozmente na direção deles, meu coração se partiu. O menino estava sentado no banco no fundo da cela, com a cabeça abaixada e os ombros sacudindo. Chorando. Chorando por minha causa. Meu Deus do céu, não havia nada que eu pudesse fazer para compensar aquilo.

Eu entrei na cela, ainda sem saber o que fazer. Pelo Rei, eu nem sequer olhei minha aparência antes de sair do hospital. Será que eu tinha folhas no cabelo? Meu rosto estava muito arranhado? Eu sabia que meus braços provavelmente estavam, porque eles ardiam.

O menino olhou na minha direção. Os olhos vermelhos escondidos pelos óculos, a pele morena resvalada pelos arranhões e a apreensão na sua expressão. A mesma que vi quando ele pulou pelas árvores, gritando em meu resgate. Meu coração deu mais uma partida. Quanto tempo será que ele tinha ficado naquele lugar? Como ele poderia me perdoar? O que posso fazer para agradecer?

― É ele mesmo ― eu disse, aliviada e apavorada ao mesmo tempo.



 


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